
Milhões de torcedores que viajarão para o Canadá, México e Estados Unidos podem ser expostos a graves violações de direitos humanos, especialmente em decorrência das políticas migratórias abusivas implementadas pelos Estados Unidos, afirma a Anistia Internacional em seu novo relatório, “ A Humanidade Deve Vencer: Defendendo os direitos, combatendo a repressão na Copa do Mundo da FIFA de 2026″ .
O relatório conclui que os riscos e impactos para torcedores, jogadores, jornalistas, trabalhadores e comunidades locais serão significativos nos três países-sede. Nos Estados Unidos, onde será disputada a maior parte dos jogos, a atual conjuntura é marcada por políticas migratórias discriminatórias, detenções em massa e prisões arbitrárias realizadas por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) e de outras agências federais.
As cidades-sede da Copa do Mundo foram impactadas pela repressão aos direitos humanos promovida pelo governo dos EUA. O presidente Trump federalizou e mobilizou aproximadamente 4.000 soldados da Guarda Nacional da Califórnia para Los Angeles em junho de 2025, em resposta aos protestos contra as operações de fiscalização migratória. Em Dallas, Houston e Miami, acordos entre autoridades locais e o ICE ampliaram a cooperação em ações de imigração, aumentando o risco de perfilamento racial, perseguição a pessoas migrantes e enfraquecimento da confiança entre comunidades e forças de segurança.
Já o México mobilizou 100 mil agentes de segurança, incluindo militares, em resposta aos altos níveis de violência, aumentando os riscos para os manifestantes. Isso inclui ativistas mulheres que planejam um protesto pacífico para a partida de abertura no Estádio Azteca, na Cidade do México, buscando justiça e reparação pelo desaparecimento de entes queridos.
No Canadá, o impacto dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 em Vancouver e a crescente crise habitacional aumentaram os temores de que pessoas em situação de rua sejam novamente desabrigadas e marginalizadas. Em 15 de março, as autoridades de Toronto fecharam um centro de acolhimento de inverno para pessoas em situação de rua, pois o local havia sido reservado com antecedência para uso pela FIFA.
Restrições de viagem e políticas migratórias abusivas ameaçam o espírito do torneio
Só em 2025, o governo dos EUA deportou mais de 500 mil pessoas, incluindo 230 mil presas no interior do país e 270 mil na fronteira, segundo análise de dados oficiais do governo feita pelo New York Times . Agentes federais, agindo como em uma operação paramilitar, têm repetidamente visado comunidades latinas, negras, asiáticas e outras comunidades de cor, detendo pessoas de forma violenta e arbitrária, incluindo crianças, perto de suas casas, escolas e locais de trabalho.
Devido às restrições de viagem impostas pelo governo Trump, torcedores da Costa do Marfim, Haiti, Irã e Senegal não poderão viajar e entrar nos EUA para apoiar seus times, a menos que possuam vistos válidos antes de 1º de janeiro de 2026. Outros torcedores enfrentam vigilância invasiva, com propostas para obrigar os visitantes a disponibilizarem suas contas de redes sociais para verificação e triagem em busca de “anti-americanismo”.
“Esta Copa do Mundo está longe de ser o torneio de ‘risco médio’ que a FIFA imaginava. É necessária uma ação urgente para garantir que a realidade do evento corresponda às promessas feitas pela própria FIFA”, afirmou Steve Cockburn, chefe de Justiça Econômica e Social da Anistia Internacional.
O direito de protesto e a liberdade de expressão estão ameaçados
As Copas do Mundo são frequentemente alvo de protestos e há riscos de que as manifestações sejam reprimidas.
Nos Estados Unidos, Canadá e México, houve restrições aos direitos à liberdade de expressão e de reunião pacífica. O governo Trump visou particularmente estudantes estrangeiros que protestavam contra o genocídio em curso perpetrado pelo governo israelense em Gaza, enquanto cidadãos americanos que protestavam e monitoravam ações agressivas de fiscalização da imigração foram mortos por agentes federais.
O Canadá tem testemunhado uma onda de protestos contra o genocídio em Gaza, incluindo manifestações pacíficas em larga escala e acampamentos estudantis que foram indevidamente dispersos ou desmantelados pela polícia.
O México também vivenciou uma série de protestos relacionados à Copa do Mundo, realizados por moradores revoltados com as interrupções no abastecimento de água, o acesso à terra, o aumento dos custos e a gentrificação associada ao desenvolvimento da infraestrutura nas cidades-sede. A natureza militarizada da mobilização de segurança no México para o torneio traz o risco de que novos protestos sejam reprimidos.
Recomendações
A poucas semanas do pontapé inicial, a afirmação da FIFA de que “o futebol une o mundo” contrasta fortemente com as práticas divisivas e repressivas dos governos que acolhem o seu principal torneio. Este Mundial de Futebol está muito longe do evento de “risco médio” que a FIFA supôs ser e são necessários esforços urgentes para diminuir o fosso crescente entre a promessa original do torneio e a realidade atual.
Ainda há tempo para evitar que o Mundial de 2026 se torne um palco de repressão e uma plataforma para práticas autoritárias. Os governos anfitriões devem cumprir as suas obrigações ao abrigo da legislação internacional de direitos humanos, enquanto a FIFA, as federações nacionais e os patrocinadores têm responsabilidades claras de respeitar os direitos humanos e utilizar a sua influência significativa para proteger adeptos, jogadores, jornalistas, trabalhadores e comunidades locais.
Assim, a FIFA, os governos nacionais e as cidades anfitriãs devem:
• garantir os direitos à liberdade de expressão e de reunião pacífica dentro e fora dos locais do Campeonato do Mundo em todos os países anfitriões, evitando o uso de forças militares para o policiamento civil e protegendo os meios de comunicação social e as pessoas defensoras dos direitos humanos;
• pôr fim às rusgas indiscriminadas, aos abusos raciais, às prisões arbitrárias, à detenção em massa e às deportações ilegais nos EUA; fornecer garantias públicas de que os eventos, locais e concentrações relacionadas ao Mundial de Futebol não serão alvo de ações de fiscalização de imigrantes;
• retirar as proibições discriminatórias de viagens aos EUA, incluindo para as equipas qualificadas para o torneio, e abandonar as propostas de verificação das contas em redes sociais;
• adotar medidas eficazes para a proteção de adeptos e pessoas LGBTQI+ contra discriminação, assédio e abusos, especialmente através de campanhas antidiscriminação e da utilização correta do protocolo antidiscriminação da FIFA durante os jogos, ao longo de todo o torneio e depois do seu encerramento;
• assegurar a publicação dos Planos de Direitos Humanos das Cidades Anfitriãs atualizados e reforçados para proporcionar proteção abrangente a adeptos, jogadores, jornalistas, trabalhadores e comunidades locais.
As federações nacionais de futebol, enquanto membros da FIFA e beneficiárias financeiras dos milhões de dólares arrecadados com o campeonato, também têm responsabilidades e devem defender os direitos humanos e os adeptos que acompanharão as respetivas seleções nacionais. Os patrocinadores também devem exercer a sua influência sobre a FIFA para garantir que esta cumpre as suas responsabilidades em matéria de direitos humanos.


