
A Anistia Internacional Brasil manifesta sua indignação diante da absolvição dos policiais militares acusados pelo assassinato de Thiago Menezes Flausino, de 13 anos, morto em 7 de agosto de 2023, na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro (RJ).
Dos quatro policiais que participaram da operação, apenas dois foram levados a júri popular. A Justiça entendeu que não havia elementos suficientes para que os outros dois fossem julgados pelo Tribunal do Júri. No julgamento realizado nos dias 10 e 11 de fevereiro de 2026, os dois policiais acusados foram absolvidos.
Além da dor da perda e da absolvição, chamou atenção durante o júri o deslocamento do foco do julgamento. Em vez de se concentrar nas circunstâncias da morte e na conduta dos acusados, houve tentativas reiteradas de questionar a vida e a memória de Thiago, associando sua imagem à criminalidade como forma de justificar sua execução.
Essa inversão, que transforma a vítima em alvo de julgamento, desvia o debate do que está em análise e fere o direito à memória, à verdade e à justiça.
Quando o foco do júri se desloca para a vida da vítima, e não para a conduta dos acusados, há uma inversão grave. O réu é quem está sendo julgado e não o menino que foi morto. Questionar a trajetória de Thiago não contribui para a justiça; ao contrário, perpetua a violência e atinge seu direito à memória e à dignidade.
A dor de ver a trajetória de seus filhos atacada é uma constante para mulheres negras moradoras de territórios vulnerabilizados pela violência policial e mães de vítimas da violência do Estado. A Anistia Internacional reforça seu compromisso com os movimentos de mães de todo o país, manifesta solidariedade à família de Thiago e seguirá ao lado dessas mulheres na busca por justiça, memória e reparação.
A história de Thiago é o retrato de uma realidade que atinge de forma desproporcional crianças e jovens negros no Brasil, em um contexto de política de segurança pública marcada por práticas violentas e racistas.
Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre 2015 e agosto de 2025, ao menos 56.396 pessoas foram mortas em ocorrências classificadas como homicídios por intervenção policial. Dessas vítimas, 82,7% eram negras e 71,7% eram jovens.
Todas essas mortes poderiam ser evitadas com uma política de segurança pública que colocasse a vida no centro de sua atuação. É urgente interromper a lógica de militarização e a narrativa de “guerra às drogas”, além de garantir a responsabilização criminal, administrativa e cível de todos os agentes do Estado envolvidos em operações letais.
A absolvição dos policiais militares representa uma derrota na luta por justiça, memória e reparação. Manifestamos nossa indignação e solidariedade com a família de Thiago. Histórias como a dele não deveriam existir e nossa luta é para que casos como este não mais se repitam.

