O último abraço: a experiência de ter sido professora de Marielle Franco

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Por Claudia Miranda*

O centro do Rio de Janeiro é o lugar do encontro das agendas de luta por direitos. Ao lado do prédio da Câmara Municipal, exatamente na rua Alcindo Guanabara, nos abraçamos. Minha ex-aluna Marielle Francisco da Silva e eu.

O mês era fevereiro, o ano 2018 e, o cenário, a praça da Cinelândia. Nosso abraço foi no seu estilo: longo e transdimensional, porque nele senti a densidade do afeto que nos marcou desde o primeiro encontro, em sala de aula.

O silêncio traduziu o pool de emoções que ela carregava em sua bagagem. Mas essa era a jovem estudante da Maré que, por alguns instantes, me dizia sem palavras: Olha como deu tudo certo, professora! Assim me chamava: professora.

Ela havia se tornado uma pessoa pública, comprometida com uma pauta que já aparecia, timidamente, lá no ano de 1998, em um pré-vestibular comunitário. Quando encontrava oportunidade, fazia questão de reconhecer que avançaria pelos objetivos de um grupo inspirador, que encontrou nas diferentes experiências de luta pelos seus pares. Aquela jovem ativista se tornaria Marielle Franco, para nossa sorte e orgulho.

Na Maré, a educação foi colocada como uma bandeira importante, e essa força comunitária animava um grupo, no qual ela se destacou, pelo desejo de “movimentar-se coletivamente”. Aos 19 anos, era essa a expressão mais forte que deixava entre nós, professores e professoras atuantes nos projetos do Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré).

Naquele período, trabalhávamos por um mesmo objetivo, que era promover a continuidade da vida acadêmica dos jovens ingressantes nos cursos; portanto, enfrentávamos as dificuldades estruturais e ideológicas vigentes. Afinal, como é crescer em uma favela e nadar na contracorrente das marés?

Nossa ex-aluna fez parte de uma “Maré” de sonhos possíveis. Seguiu firme e estudou nas melhores instituições de ensino superior do Rio de Janeiro, alcançando o grau de mestre. Foi por opção profissional e consciência política que atuou como assessora parlamentar e, posteriormente, vereadora. Decerto, essa última escolha revela a intelectual orgânica, ex-estudante de escola pública e moradora de favela.

Nossa Marielle tornou-se a Marielle de todos, referência para outros jovens ativistas e, também, para educadoras e educadores que se inspiram com presenças como a sua.

Na luta pelo direito à educação, Marielle foi uma, entre centenas de estudantes que ajudei a formar, cuja principal vocação era agregar e fortalecer seus iguais. Tinha ótimo humor. Além dessa característica agregadora, era impulsiva e pragmática. Anunciava: “vamos lá porque é tudo nosso!”

Exatamente assim, ela forjou-se no seu percurso, priorizando estratégias de maior penetração social. Alcançou a quinta maior votação para uma legislatura que iria de 2017 a 2020. Foi assassinada em 2018, enquanto criticava as consequências da violência da intervenção do Estado nas favelas.

Ainda esperamos respostas dos órgãos responsáveis pela investigação desse assassinato. Todos que atuamos como promotores de justiça apostamos que esses processos nos ensinam sobre as gramáticas que definem relações sociais e políticas.

Seguimos inspirados nos estudantes porque são eles e elas o nosso foco. Perder a jovem Marielle não foi fácil, mas essa perda nos revelou sua força de mulher-semente que germinou e se multiplicou em centenas de milhares de Marielles mundo afora.

* Claudia Miranda foi professora de Marielle Franco no curso pré-vestibular comunitário do Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré).

Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 14 de outubro de 2018.

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