Iêmen: Emirados Árabes munem milícias com armas ocidentais

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6 de fevereiro de 2019 Política internacional Conflitos
Tropas e milícias posicionadas nas principais estradas do distrito de Mansura. Foto: SALEH AL-OBEIDI / AFP / Getty Images

Uma investigação através de software de código aberto publicada hoje pela Anistia Internacional destaca um perigo crescente no conflito do Iêmen, já que os Emirados Árabes Unidos (EAU) armam, de forma imprudente, milícias com uma série de armas avançadas.

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A investigação, “Quando as armas se desviam: a nova ameaça mortal de desvio de armas do Iêmen às milícias”, mostra como os Emirados Árabes Unidos se tornaram um importante canal para veículos blindados, sistemas de morteiros, rifles, pistolas e metralhadoras – que estão sendo desviados ilicitamente para milícias acusadas de crimes de guerra e outras violações graves de direitos humanos.

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“Enquanto os EUA, o Reino Unido, a França e outros países europeus foram criticados por fornecer armas para as forças da Coalizão, e o Irã estar envolvido no envio de armas para os Huthis, uma nova ameaça está surgindo. O Iêmen está rapidamente se tornando um refúgio seguro para as incontáveis milícias apoiadas pelos EAU”, disse Patrick Wilcken, Pesquisador de Controle de Armas e Direitos Humanos da Anistia Internacional.

“As forças dos Emirados Árabes recebem bilhões de dólares em armamentos de estados ocidentais apenas para desviá-los para as milícias no Iêmen que não atendem ninguém e são conhecidos por estar cometendo crimes de guerra.

“A proliferação dessas forças de combate é uma receita para o desastre que já matou milhares de civis iemenitas, enquanto outros milhões estão à beira da fome como resultado direto da guerra”.

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Os grupos armados que estão participando dos negócios de armas – incluindo “The Giants”, o Cinturão de Segurança e as Forças de Elite – são treinados e financiados pelos Emirados Árabes Unidos, mas não respondem a nenhum governo. Alguns deles são acusados de crimes de guerra, inclusive durante a recente ofensiva na cidade portuária de Hodeidah e na rede de prisões secretas apoiadas pelos EAU no sul do Iêmen.

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Estados fornecendo armas aos Emirados Árabes Unidos

Desde a eclosão do conflito iemenita em março de 2015, estados ocidentais forneceram aos EAU mais de US$ 5 bilhões em armas convencionais pesadas – incluindo aeronaves e navios -, armas pequenas, armas leves e peças e munições associadas.

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Apesar das graves violações atribuídas aos EAU e às milícias que apoiou, os seguintes estados forneceram recentemente armas aos Emirados Árabes: Austrália, Bélgica, Brasil, Bulgária, República Tcheca, França, Alemanha, África do Sul, Coréia do Sul, Turquia, Reino Unido e EUA, entre outros. 

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A Anistia Internacional analisou evidências através de código aberto em torno da batalha por Hodeidah e descobriu que os veículos militares e armas fornecidas aos EAU estão sendo amplamente utilizados pelas milícias locais.

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Uma grande variedade de veículos blindados fornecidos pelos EUA, equipados com metralhadoras pesadas, incluindo os modelos M-ATV, Caiman e MaxxPro, foram documentados nas mãos das milícias apoiadas pelos EAU, como o Security Belt, as forças de elite de Shabwani e “The Giants”.

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As metralhadoras belgas Minimi, também vendidas para os Emirados Árabes Unidos, estão sendo implantadas pela The Giants. Outras armas usadas pelas milícias aliadas dos Emirados Árabes Unidos em Hodeidah incluem metralhadoras Zastava MO2 Coyote, fabricadas na Sérvia, e o Agrab – morteiro cingapuriano de 120mm rebocado. Os EAU são o único país conhecido por comprar este sistema de armas combinado.

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Em outros lugares no Iêmen, os Emirados Árabes Unidos treinaram e financiaram diretamente milícias, incluindo o Cinturão de Segurança e as Forças de Elite, que operam uma rede de prisões secretas conhecidas como “locais sombrios”.

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A Anistia Internacional e outras organizações já documentaram o papel dessas forças em desaparecimentos forçados e outras violações nessas instalações – inclusive detenção sob a mira de uma arma, tortura com choques elétricos, afogamento, enforcamento no teto, humilhação sexual, confinamento solitário prolongado, condições miseráveis e comida e água impróprios para consumo. 

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As milícias apoiadas pelos EAU que administram esses locais empunham rifles búlgaros e dirigem veículos blindados americanos.

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Violação do Tratado de Comércio de Armas 

Muitos dos estados que continuam a fornecer armas para os Emirados Árabes Unidos são parte do Tratado Global de Comércio de Armas. Alguns têm outras obrigações legais, como membros da UE ou sob as leis domésticas, de não exportar armas usadas para cometer crimes de guerra. Ao persistir na transferência de armas para os Emirados Árabes Unidos, apesar de provas esmagadoras de que as armas estão sendo usadas em crimes de guerra e outras violações graves no Iêmen, eles estão desrespeitando essas obrigações.

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A Anistia Internacional apela a todos os Estados para que deixem de fornecer armas a todas as partes no conflito no Iêmen, até que não exista mais um risco substancial de que tais equipamentos sejam usados para cometer ou facilitar violações graves das leis humanitárias internacionais e de direitos humanos. A Dinamarca, a Finlândia, os Países Baixos e a Noruega anunciaram recentemente a suspensão das transferências de armas para os EAU. 

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“À medida que a próxima rodada de conversações de paz sobre o conflito no Iêmen se aproxima, os países que fornecem armas precisam refletir com atenção sobre como suas transferências de armas continuam a direta e indiretamente alimentar os crimes de guerra e outras violações sérias. A proliferação de milícias apoiadas pelos EAU está piorando a crise humanitária, representando uma ameaça crescente para a população civil”, disse Patrick Wilcken.

“Apenas um punhado de países fez a coisa certa e parou o envio de armas para o devastador conflito do Iêmen. Outros devem seguir seus passos ou compartilharão a responsabilidade pelo custo que esses bilhões de dólares em transferências de armas estão provocando em civis no Iêmen”.

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