Entusiastas da Wikipedia em todo o mundo unirão forças nos dias 19 e 20 de maio de 2018 para participar de um editaço global que destacará mulheres defensoras de direitos humanos que nunca foram reconhecidas e que dedicaram suas vidas ao combate da injustiça.

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O BRAVE:Edit, uma colaboração entre a Anistia Internacional e a Wikimedia (organização sem fins lucrativos da Wikipedia), terá centenas de ativistas on-line em mais de 20 países levando ao popular site as biografias de mulheres defensoras de direitos humanos.

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O termo “mulheres defensoras dos direitos humanos” se refere a mulheres, em toda a sua diversidade, que trabalham com qualquer questão relacionada aos direitos humanos e também a defensores de qualquer gênero que trabalham com direitos relativos a gênero e sexualidade. O evento têm o objetivo de destacar o perfil do incrível trabalho feito por essas pessoas, que estão sub-representadas nas páginas da Wikipedia.

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“Há mais de cinco milhões e meio de entradas só na versão em inglês da Wikipedia, sobre os mais diversos assuntos. No entanto, menos de 20% das biografias são dedicadas a mulheres, com poucas destinadas ao importante trabalho de defensores de direitos humanos, e menos ainda destinadas a mulheres defensoras de direitos humanos”, disse Guadalupe Marengo, chefe do Programa de Defensores dos Direitos Humanos da Anistia Internacional.

“O BRAVE:Edit espera preencher essa lacuna gritante. Essas são histórias de mulheres verdadeiramente inspiradoras, que superaram obstáculos gigantescos e combateram a discriminação arraigada em defesa dos direitos humanos. Ativistas de todo o mundo ajudarão a levá-las até um público mundial, que é onde elas devem estar”.

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O trabalho de defensoras dos direitos humanos frequentemente desbrava novos caminhos, já que elas continuam a desafiar o poder e as normas sociais nocivas. No entanto, essas mesmas normas significam que mulheres muitas vezes encaram mais discriminação do que seus correspondentes do sexo masculino. Como indivíduos, elas são consideradas menos valiosas porque são mulheres, pertencentes à população LGBTI ou em razão de seu trabalho relacionado a gênero e sexualidade. Elas também correm mais risco de violência sexual e assédio.

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O trabalho de defensoras dos direitos humanos continua a ser sub-representado e insuficientemente reconhecido pela sociedade em geral, pelos políticos e pela mídia. Pouquíssimas informações públicas são disponibilizadas sobre o incrível trabalho que eles fazem, e as que existem estão normalmente restritas a plataformas especializadas.

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De acordo com John Lubbock, Coordenador de Comunicação da Wikimedia do Reino Unido:

“Para a Wikimedia, trabalhar com a comunidade global da Anistia Internacional é uma oportunidade de atingir novos públicos a fim de encorajá-los a se envolver na criação de conhecimento sobre as suas identidades e histórias, e de se certificar que defensoras de direitos humanos recebam a devida importância e proeminência que merecem no mundo on-line.”

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A Wikipedia é visitada por 1,4 bilhão de dispositivos únicos por mês, mas apenas uma fração desses usuários editam o conteúdo. Mundialmente, apenas cerca de 50% da população têm acesso à internet, e as pessoas que mais frequentemente editam a Wikipedia são brancas, europeias ou estadunidense, do sexo masculino. O conteúdo tende a refletir os interesses desses indivíduos; portanto, esta é uma chance de encorajar mais editores e mais conteúdo sobre diferentes identidades para, assim, refletir melhor o mundo em que vivemos

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A expectativa é que após o editaço, pessoas inspiradoras como Alessandra Ramos Makkeda do Brasil, Maryam Akbari Monfared do Irã, e Elena Gorolová da República Checa tenham todas um espaço na Wikipedia.

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Alessandra é uma mulher transexual e ativista da causa LGBTI, que enfrentou uma série de discriminações. Alessandra muitas vezes ouviu palavras como “não aceitamos pessoas do seu tipo aqui”. Até recusaram emprego a ela porque se revelou uma mulher transexual. Apesar dos obstáculos, Alessandra continua a lutar contra a discriminação e promove discussões sobre questões relacionadas a transgêneros, lésbicas e gays.

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Maryam é uma prisioneira de consciência. Ela foi presa em 2009, desaparecida à força por cinco meses, e agora está cumprindo uma pena de 15 anos após ter sido condenada por “inimizade contra Deus”. Ao longo de sua detenção, ela continuou com a sua campanha ao publicar cartas abertas sobre as condições da prisão para mulheres. Maryam também registrou uma queixa formal, exigindo verdade e justiça para milhares de prisioneiros políticos que foram vítimas de execuções extrajudiciais em 1988, incluindo seus irmãos. Como resultado, ela foi ameaçada de aumento de pena e teve tratamento médico negado.

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Elena é outra mulher corajosa que merece um lugar na Wikipedia. Elena foi forçadamente esterilizada em um hospital, depois de dar à luz o seu segundo filho – ela não havia dado consentimento para o procedimento. Sua experiência a motivou a se juntar a outras mulheres e a fazer campanha para acabar com essa prática terrível e com a discriminação contra as mulheres do povo rom, popularmente conhecido como povo cigano.

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Bridget Tolley, uma ativista canadense do movimento liderado por indígenas pela justiça para mulheres, meninas e pessoas dois-espíritos (designação a pessoas de gênero misto em algumas tribos indígenas norte-americanas) assassinadas ou desaparecidas, disse:

“Como o quinto site mais visitado do mundo, a Wikipedia oferece uma oportunidade fantástica de preencher essa lacuna e garantir que mulheres como eu ganhem a visibilidade que merecemos. Como mulher algonquina (povo indígena da América do Norte), avó e bisavó, encarei os impactos do colonialismo, do racismo, da exploração econômica, do abuso sistêmico e do ódio direcionado a mulheres durante toda a minha vida, mas ter meu trabalho destacado de maneira positiva significa que nossas lutas e nossa resiliência como mulheres indígenas não podem mais ser ignoradas. Não seremos silenciadas”. 

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Os escritórios da Anistia Internacional em todo o mundo têm recrutado editores para postar biografias, com o objetivo de adicionar nomes ou melhorar os perfis de defensores dos direitos humanos das mulheres de todo o mundo. Do Reino Unido a Filipinas, Nigéria, Índia e Brasil, o editaço acontecerá em diversos países, incluindo todas as regiões do mundo.

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O BRAVE:Edit faz parte da campanha Coragem, da Anistia Internacional, que pretende fortalecer o reconhecimento e a proteção de defensores dos direitos humanos em todo o mundo.

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Saiba mais:

BRAVE – A campanha pelos Defensores dos Direitos Humanos

Anistia Internacional organiza ‘editaço’ global sobre mulheres defensoras de direitos humanos em parceria com Wikipédia