
Mais de 2 bilhões de pessoas — cerca de um quarto da população mundial — vivem próximas a alguma infraestrutura de carvão, petróleo ou gás.
Segundo um novo relatório da Anistia Internacional e do Better Planet Laboratory (BPL), essa proximidade coloca em risco a saúde, os meios de vida e os direitos humanos de comunidades inteiras em 170 países.
O estudo, “Extinção por Extração – Por que o ciclo de vida dos combustíveis fósseis ameaça a vida, a natureza e os direitos humanos”, mostra que mais de 18 mil instalações fósseis em operação estão cercadas por populações expostas à poluição tóxica, perda de território e destruição de ecossistemas.
520 milhões de crianças vivem a menos de 5 km dessas áreas — muitas em verdadeiras “zonas de sacrifício”, onde a contaminação e a degradação ambiental se tornam permanentes.
As consequências humanas da era fóssil
Os impactos vão muito além da crise climática. O relatório demonstra que a extração, o transporte e o refino de combustíveis fósseis estão diretamente ligados ao aumento de doenças respiratórias, cardiovasculares, cânceres e problemas reprodutivos.
Em países como Brasil, Canadá e Senegal, a Anistia Internacional ouviu comunidades que convivem diariamente com esses riscos: pescadores artesanais da Baía de Guanabara (RJ), defensores indígenas Wet’suwet’en no Canadá e moradores do Delta de Saloum no Senegal.
“Não queremos dinheiro. Só queremos o que é nosso. Queremos pescar na Baía de Guanabara — é nosso direito, e estão tirando nossos direitos.”
Bruno Alves de Vega, pescador artesanal do Rio de Janeiro
Além dos impactos à saúde e ao meio ambiente, o relatório denuncia ameaças, perseguições e criminalização de pessoas defensoras do meio ambiente e dos direitos humanos — especialmente povos indígenas e comunidades tradicionais que resistem à destruição de seus territórios.
Expansão sem limites e contradição com os compromissos climáticos
Mesmo diante da emergência climática, a indústria fóssil continua crescendo.
Mais de 3.500 novos projetos estão em proposta, desenvolvimento ou construção ao redor do mundo — o que pode colocar mais 135 milhões de pessoas em risco.
“Os governos prometeram reduzir o uso de combustíveis fósseis, mas a realidade mostra o oposto: novos projetos continuam avançando justamente nas áreas mais sensíveis do planeta.”
Ginni Braich, cientista de dados do Better Planet Laboratory
Atualmente, 80% da energia primária global ainda vem de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, governos e empresas intensificam sua influência sobre fóruns de decisão climática, atrasando uma transição justa e a proteção de direitos.
Um chamado urgente por uma transição justa e global
“A indústria de combustíveis fósseis está colocando em risco bilhões de vidas e alterando irreversivelmente o sistema climático. É hora de acabar com a era dos fósseis e garantir uma transição energética justa, rápida e centrada nos direitos humanos.”
Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional
A Anistia Internacional pede aos Estados e empresas que:
- Interrompam a expansão de novos projetos fósseis;
- ️ Implementem um plano de eliminação total, justa e financiada dessas fontes de energia;
- Protejam defensoras e defensores ambientais e de direitos humanos, investigando ameaças e garantindo sua participação nas decisões sobre o clima;
- Apoiem um Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis, para frear a destruição e acelerar uma economia limpa, equitativa e baseada em direitos.
Um alerta para a COP30
Lançado às vésperas da COP30, que será sediada no Brasil, o relatório reforça o papel fundamental dos povos da floresta, comunidades tradicionais e da sociedade civil na construção de soluções reais para a crise climática.
A crise climática é também uma crise de direitos humanos.
A transição energética só será justa se combater desigualdades e reparar injustiças históricas.
“Sob o disfarce do crescimento econômico, governos e corporações têm destruído a atmosfera, os ecossistemas e as vidas de milhões de pessoas. Contra essa economia global da repressão fóssil, precisamos resistir juntos — e exigir que líderes cumpram suas obrigações. A humanidade precisa vencer.”
Agnès Callamard

