A violência contra LGBTI não vai desaparecer

Tarah Demant
Anistia Internacional Estados Unidos

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Originalmente publicado no site Slate em 12 de junho de 2016

Tarah Demant, da Anistia Internacional Estados Unidos, fala sobre o discurso de ódio dentro e fora do país

Por Isaac Chotiner

O assassinato em massa ocorrido no último fim de semana em uma boate gay em Orlando, Flórida – que até a última contagem vitimou 50 pessoas – chamou atenção para o islamismo violento e o controle de armas. Ainda se destacam as ameaças e violência enfrentadas por pessoas da comunidade LGBTI. (O pai do suposto assassino de Orlando afirmou que seu filho estava incomodado com homens se beijando em público.)

No domingo (12), conversei com Tarah Demant, diretor sênior da Unidade de Identidade e Discriminação da Anistia Internacional EUA. Durante a conversa, falamos sobre os diferentes tipos de violência contra as minorias sexuais, assassinato de homens gays pelo ISIS, e a ameaça que todos nós enfrentamos quando a retórica do ódio atravessa fronteiras.

 

Que ameaças as pessoas LGBTI mais enfrentam atualmente?

Há muita coisa que não sabemos sobre essa violência terrível que aconteceu em Orlando. O que nós sabemos é que as pessoas LGBTI e as pessoas que são identificadas por outras como LGBTI são alvos de violência em todo o mundo. Infelizmente, este é um problema crescente. Em nosso país (EUA), vemos homens trans, em particular negros, sob ameaça. Vemos isso em nível global, com leis que criminalizam o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo e criam um ambiente hostil para pessoas LGBTI não só na sociedade, mas também com a polícia. Na Tunísia, por exemplo, as relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo são proibidas e as pessoas LGBTI identificadas mantendo este tipo de relacionamento, tornam-se alvos da polícia. Recentemente, em Bangladesh, um ativista foi agredido até a morte, e até agora não vimos nenhuma responsabilização ou justiça.

Que tipo de propaganda anti-gay e anti-LGBTI você tem visto nos grupos extremistas?

Cada país possui um tipo de grupo. Este não é apenas um problema do exterior. Em todos os lugares, há grupos que querem criar uma cultura de ódio e de medo, especificamente a propagação violência. O tipo de violência que estamos vendo em Uganda, por exemplo, é, em parte, do próprio governo visando as pessoas LGBTI: a elaboração de um projeto de lei em que você pode ser condenado à morte pelo “crime” de ser gay (o castigo final foi alterado para a forma mais grave de punição). Em todo o mundo, você tem pessoas que votam em políticos que defendem esse tipo de lei. Vemos isso não apenas em grupos eleitos, mas em grupos terroristas que usam as pessoas LGBTI como bode expiatório para o que eles definem como males do mundo.

Poderia falar sobre como a comunidade LGBTI se torna alvo de grupos terroristas, em especial grupos extremistas como o ISIS?

Durante o ano passado, o grupo que se autodenomina Estado Islâmico, matou dezenas de homens no Iraque e na Síria sob a alegação de que eram gays. As vítimas foram jogadas de telhados de edifícios. Vimos ocorrer situações semelhantes realizadas por grupos extremistas da Nigéria. Este mesmo tipo de violência também vitimou mulheres e crianças.

Na sua opinião, há uma reação contrária aos avanços que foram feitos em termos de expansão dos direitos ou a violência é apenas mais visível agora, aqui e em todo o mundo?

Com certeza a visibilidade das minorias LGBTI aumentou, e por causa disso há lugares onde as pessoas LGBTI vivem com mais dignidade e os direitos humanos se tornam mais visíveis. Embora seja possível perceber uma reação, essa violência vem de muito tempo. Vemos em nosso próprio país, reações em relação ao uso do banheiro por pessoas LGBTI, que não têm absolutamente nada a ver com a segurança e sim, com o ódio e a discriminação. O uso de pessoas LGBTI como bode expiatório tem motivação política e é perceptível, principalmente, quando políticos afirmam que pessoas trans, em especial pessoas negras, representam uma ameaça física e moral à sociedade. Este tipo de discurso é uma das razões que justificam a continuidade dos crimes de ódio. É preciso sim comemorar os progressos, mas as pessoas LGBTI continuam sendo vítimas da violência diária. Uma das coisas que particularmente nos interessa é a invisibilidade das mulheres trans, em especial as mulheres negras, que além de atacadas são brutalmente assassinadas de forma sistemática. E isso não ganha tanta repercussão midiática como outras formas de violência que acontecem. Acredito que isso esteja relacionado com a maneira como valorizamos, ou não valorizamos, as mulheres negras trans.

Agora também tem o fato de que direitistas cristãos inspiram o ativismo anti-gay na Africa e em outras regiões.

O ativismo anti-LGBTI no exterior é financiado e bem apoiado pelo extremismo religioso americano. É importante pensarmos sobre nosso papel e o caminho de ódio que tem se espalhado. É uma situação delicada para nós como organização internacional. Nós queremos responder às ameaças, mas também entender as causas para além do campo de trabalho. Aqui nos Estados Unidos e no mundo, não somos uma comunidade de direitos humanos.

E faz o caminho inverso também. Quem sabe até que ponto esse cara foi inspirado por pessoas no exterior, mas o tráfego de ideias nocivas, como vimos com ISIS – sem querer elaborar equivalência moral – vai nos dois sentidos.

Uma das lições que aprendemos aqui é que estamos num mundo global: se os direitos humanos são violados em algum outro lugar onde não vivemos, isso também é importante para nós. Uma das coisas que tentamos fazer como uma organização global é ter certeza de que os governos e as pessoas respondam globalmente. Violações de direitos humanos que acontecem no exterior, também são responsabilidade nossa, nos interessam, porque estamos conectados, e não apenas de forma emocional ou teórica, mas de uma forma muito real.

 

Tarah Demant
Anistia Internacional Estados Unidos

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