Vila Autódromo: residir é resistir

Lígia Batista
Assistente de Pesquisa da Anistia Internacional Brasil

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A Vila Autódromo se localiza próximo à Lagoa de Jacarepaguá e o antigo Autódromo. Ela se tornou símbolo carioca de resistência contra remoções forçadas e atualmente pede socorro.

No último sábado (27/02) estive em visita à localidade, por ocasião do lançamento do novo Plano Popular de Urbanização da comunidade, e pude conferir de perto as marcas deixadas pela gentrificação, pela especulação imobiliária e pelo não-direito à cidade imposto aos moradores.

Depois de décadas de muita luta e ameaças constantes de remoção ao longo dos anos, a Vila Autódromo vê pouco a pouco arrebatadas as raízes de sua história. Das cerca de 600 famílias que ali viviam, menos de 50 ainda estão por lá. As remoções, iniciadas há cerca de dois anos na região, contrastam com o discurso do prefeito Eduardo Paes, que já afirmou publicamente e em reunião com a Anistia Internacional que não retiraria de lá os moradores que mostrassem interesse em ficar.

Hoje o cenário é desolador. As famílias que conseguiram permanecer, buscando forças frente às investidas da Prefeitura, se veem em uma situação de tremenda exposição e insegurança. Há escombros por todos os lados, o fornecimento de água e de luz elétrica foi cortado, as vias de acesso à comunidade foram fechadas e a Guarda Municipal ronda constantemente a região. Isso sem contar com as obras destinadas à construção do Parque Olímpico, as quais também tem gerado um impacto significativo no dia-a-dia dos moradores.

Importante lembrar que a Vila está inserida em uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), área destinada a moradias populares. Além disso, o Governo do Estado concedeu aos moradores o Direito Real de Uso para Moradia na década de 1990. Tudo deveria convergir para a proteção dessas famílias, de suas casas e de seus vínculos históricos, mas parece que o legado olímpico não pretende beneficiar a todos de forma igual.

Sobre isso, diante do contraste visível entre as construções luxuosas dos arredores e as singelas casas que restaram da Vila Autódromo, não há fala mais lúcida que a de Dona Jane, antiga moradora removida em agosto de 2015: “Não há nenhum legado para o povo. Há um legado para os governos e o bolso dos empresários”.

Hoje as ameaças de remoção ainda não cessaram e é preciso que nos mobilizemos em defesa dos ainda lutam. Não podemos nos esquecer de que a moradia adequada é um direito humano. Prefeito, a Vila tem que ficar! Urbanize já!

Fotos de AF Rodrigues

Lígia Batista
Assistente de Pesquisa da Anistia Internacional Brasil

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