A única testemunha do assassinato de Berta Cáceres rompe o silêncio: “Era óbvio que iam mata-la”

Josefina Salomon
Redatora de notícias na Anistia Internacional

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Os homens armados que irromperam na casa da líder indígena hondurenha Berta Cáceres em 3 de março tinham um plano simples: encontrar a defensora de direitos humanos, matá-la e fugir.

O que não esperavam, é que Gustavo Castro, outro defensor de direitos humanos que trabalha com Friends of the Earth México e um amigo próximo de Berta, estaria no quarto contíguo.

“Estava trabalhando em uma apresentação quando escutei um ruído muito forte,” disse Gustavo que agora está no México. “Pensei que havia caído algo, mas quando Berta gritou: ‘Quem está aí?’ soube que se tratava do pior, que era o final.

Quando o escutaram, um dos homens armados correu ao quarto onde estava Gustavo. Apontou a arma para seu rosto, disparou e fugiu.

“Tudo passou tão rápido que nem tive tempo de pensar,” disse Gustavo. “Quando chegou o pistoleiro com sua arma atinei em tapar-me a cara com as mãos. O pistoleiro parou a três metros de mim. Quando saiu a bala apenas me movi e o disparo me passou pelo ouvido. O pistoleiro pensou que havia me matado. Sobrevivi por milagre.”

Quando os pistoleiros se foram, Gustavo foi rapidamente onde Berta estava. Ela estava no chão, sangrando profusamente, mal podia falar, mas o chamava.

“Senti-me indefeso, não havia ninguém ao redor a quem pedir ajuda,” disse Gustavo. “Tentei auxilia-la, anima-la. Disse-lhe que não se fosse e ligava no celular ao mesmo tempo, mas tudo passou muito rápido.”

Berta morreu pouco depois da meia-noite em 3 de março, minutos após ter sido alvejada. Seu assassinato lança luz sobre os riscos enfrentados por milhares de pessoas que trabalham para defender os direitos humanos e o meio-ambiente em Honduras. Segundo informação da organização Global Witness, Honduras é o país mais perigoso e letal do mundo para ativistas de meio ambiente – 109 foram assassinados entre 2010 e 2015.

A líder e cofundadora do Comitê Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), Berta Cáceres passou décadas fazendo campanha contra projetos que ameaçavam os direitos de comunidades locais.

Mais recentemente, foi uma das vozes mais ativas na oposição da construção da represa Água Zarca em Rio Blanco. A represa ameaça o fluxo do rio Gualcarque, que é sagrado para a comunidade indígena Lenca e prove-lhes comida e água potável. O COPINH assegura que, caso houvesse a construção, forçaria a comunidade a mudar-se porque a vida na área seria virtualmente impossível.

Berta liderou a campanha contra a represa, queixando-se de que a comunidade nunca foi consultada efetivamente sobre o projeto. Ajudou a comunidade a organizar protestos pacíficos, apresentar denúncias e contar ao mundo o que estava acontecendo.

Mas seu ativismo forte e pacifico não agradava as autoridades e aqueles com interesses no projeto. Os que se opunham ao projeto denunciaram terem sido intimidados e ameaçados de morte. As autoridades não ofereceram proteção efetiva.                    

……….

‘Um desastre anunciado’

Gustavo chegou a La Esperanza um dia antes do assassinato de Berta. Iria participar de um encontro com líderes e membros de comunidades locais para discutir alternativas aos projetos hidroelétricos na área.

“Tivemos uma reflexão muito rica com cerca de 80 membros de comunidades locais,” disse.  “Nossa ideia é resistir, mas também buscar alternativas. O sonho é construir outros mundos possíveis, dar vida em meio a tanta violência e tanta morte mas já nem isso nos deixam.”

Depois da reunião, Berta sugeriu a Gustavo que ficasse com ela nessa noite porque sua casa tinha melhor conexão de Internet do que onde ele estava. Jantaram com a mãe de Berta e tiveram oportunidade de se atualizarem sobre o trabalho que os dois vinham realizando e as muitas ameaças de morte que Berta havia recebido nas semanas anteriores.

“Estava cantado, iriam assassinar a Berta em algum momento,” disse Gustavo.

Comeram arroz e feijão, falaram, debateram. Depois Berta sugeriu que fossem para sua casa. Era tarde e não estavam em uma área onde se pode andar quando o sol se põe.

Gustavo lembra que ao chegar à casa de Berta disse-lhe que o lugar não era seguro. A casa é pequena, de três aposentos e rodeada apenas por uma grade de metal como única proteção contra intrusos. Mas Berta tentou tranquiliza-lo. Disse-lhe que nem sempre ficava ali.

Gustavo fumou um par de cigarros do lado de fora enquanto falavam, antes que cada um fosse para o seu quarto, emocionados com os planos do dia seguinte.

Mas a tragédia chegou nessa noite, matando uma defensora dos direitos humanos e escurecendo a esperança das comunidades que haviam estado lutando por seus direitos.

Gustavo disse que o assassinato de Berta foi um desastre anunciado. Descreve-a como a mais recente vitima de um país que não faz nada para proteger aquelas pessoas que se atrevem a enfrentar os poderosos.

Offering organized by members of COPINH to commemorate Berta Caceres' death, Rio Blanco, Intibucá, Honduras, 13/03/2016
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‘Me sinto como uma ficha de intercambio’
 
O brutal assassinato de sua amiga foi apenas o começo de sua terrível experiência.
 
As autoridades de Honduras não ofereceram proteção adequada, apesar do perigo que enfrentava como a única testemunha do assassinato de Berta e apesar de mal haver escapado de ser assassinado.
 
Em vez disso, teve que visitar numerosos ministérios e cortes, contar sua historia várias vezes. Impediram-no de sair do país por um mês e efetivamente o trataram como suspeito.
 
“Depois de um mês, a juíza em exercício suspendeu minha advogada. Violaram todos os meus direitos. Tinha muito temor todos os dias. Pensava que em qualquer momento podia acontecer-me algo. Sentia-me como uma ficha de intercambio.”
 
Passaram quase dois meses desde o assassinato de Berta, mas as autoridades muito pouco fizeram para encontrar os responsáveis ou estabelecer medidas para proteger de maneira efetiva as pessoas que defendem os direitos humanos que estão em risco como ela, aquelas pessoas que estão a frente de uma luta desigual.
 
Na segunda-feira, as autoridades hondurenhas prenderam cinco homens em relação com o assassinato de Berta — um deles tem vínculos com a companhia encarregada da construção da represa. Os quatro serão levados ante um juiz na segunda-feira.
 
Nem o advogado de Berta nem sua família haviam sido informados das prisões e denunciaram as autoridades pela falta de transparência nas investigações até esta data.
 
Muitos suspeitam que Berta foi assassinada porque protagonizava uma luta contra a represa. O projeto Agua Zarca publicou uma declaração negando qualquer tipo de relação com o crime. As autoridades focaram suas investigações em membros da organização de Berta. Apenas um mês após seu assassinato, as autoridades anunciaram que haviam realizado uma busca nos escritórios de DESA  10 dias depois do assassinato de Berta e tomaram o testemunho dos empregados da empresa.
 
Gustavo disse que a solução é gerar mecanismos que “garantam justiça” e “protejam os defensores de direitos humanos e os melhores interesses da população em Honduras”, independentemente de qualquer interesse econômico.
 
E recorda uma das frases preferidas de Berta: “Eles tem medo de nós porque não temos medo deles.”

Josefina Salomon
Redatora de notícias na Anistia Internacional

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