“Eu não luto por uma pessoa, eu luto por todos”

Mônica Cunha
Fundadora do Movimento Moleque e integrante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

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“Meu filho Rafael da Silva Cunha foi assassinado no dia 5 de dezembro de 2006, aos 20 anos. Mas minha militância não começou com a morte dele, e sim quando ele tinha 15 anos e foi cumprir medidas socioeducativas em um estabelecimento do Degase, no Rio de Janeiro. Meu início de luta, o que me impulsionou a lutar, foi quando meu filho se tornou um adolescente autor de ato infracional. Como muitas mães, eu só fiquei sabendo que ele cometera ato infracional quando a polícia ligou para avisar. Eu tinha uma pensão de quentinhas à época, no bairro do Riachuelo, era por volta de meio-dia, e a detetive da 23ª DP (Méier) ligou para dizer que meu filho estava detido. Na hora eu não acreditei, como assim, meu filho estuda em colégio particular, uma hora dessas está voltando da escola com o irmão caçula. Bati o telefone. Só podia ser engano.

Dali a pouco, o telefone tocou de novo, e a detetive disse meu nome completo: ‘Mônica Suzana da Silva Cunha? Seu filho Rafael está aqui detido e eu queria que a senhora comparecesse à DPCA’. Eu nem sabia o que era DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente), era um mundo que não me pertencia. Tomei um susto, larguei as quentinhas, passei em casa para pegar documentos, chorando, desesperada. Fumava um cigarro atrás do outro. E fui para a DPCA, no Centro. Fiquei lá esperando até ele chegar. Chegou com um detetive segurando num braço, uma detetive feminina segurando no outro. Ele estava de bermuda jeans, a mesma com que saiu para ir à escola às seis da manhã, descalço, sem camisa, todo vermelho e as costas com marcas de coturno. Bateram muito no meu filho, chutaram, pisaram nele, tinha marcas nas costelas, nas pernas. Eu vi aquilo e fiquei louca.

Sempre fui muito severa com meus filhos. Não digo o caçula Wilbert, que não viveu tanto isso, mas o mais velho, Marcos Vinícius (na época com 19, hoje com 34 anos), e o Rafael, eles pareciam dois soldadinhos de chumbo, eles não podiam se sujar, eu não gostava nem de liberar para brincar com outras crianças. Lá em casa parecia um quartel. Assim criei meus filhos, pagava colégio particular. Meu filho se envolver com crime? Como? Na minha cabeça, naquele tempo, aquilo era surreal, inacreditável. Como alguém podia bater no filho que eu criei daquele jeito?

Parti para cima do detetive, xingando, reclamando. Aí ele me disse: ‘Vocês são muito engraçadas. Na hora de parir bandido, vocês não chamam a gente. Mas, quando eles aprontam e a gente vem limpar as ruas, vocês fazem essa cena”. Eu fiquei louca e respondi: ‘Eu não pari bandido, quem pariu bandido foi tua mãe quando te pariu’. Aí ele chamou o delegado, queria me enquadrar por desacato, aquela confusão toda. Eu percebi que o delegado me tratou diferente, na época eu não entendi, só fui entender mais tarde: por causa do meu CEP, que não era de favela, e pela minha inexperiência em lidar com aquela situação. Ele me levou pra sala dele, me acalmou um pouco e disse que meu filho tinha sido pego roubando um carro na região do Méier. ‘Por ele ser adolescente, ele não vai cumprir pena com adultos. Mas estão aqui os endereços que a senhora tem que procurar amanhã, porque hoje ele não dorme mais em casa, vai para uma unidade de triagem. Eu vou deixar a senhora comprar um lanche e conversar com ele. Aí ele mesmo explica por que fez isso com a senhora, e com ele mesmo’, disse o delegado.

Comprei o lanche e sentei diante do meu filho. Ele de cabeça baixa. Não respondeu absolutamente nada. E eu limpando ele, querendo que ele comesse, perguntando quem tinha obrigado ele a fazer aquilo, como se ele fosse meu bebê. É assim que a maioria das mães faz da primeira vez. Foi ali naquela sala, diante do meu filho de cabeça baixa, que eu comecei a entender como ia ser dali para a frente. Rafael foi parar num presídio, que não deveria ser, mas é, e eu estava apenas começando minha luta.

 

Eu achei que aquela unidade de medidas socioeducativas para onde meu filho tinha sido mandado (Instituto Padre Severino, no Rio de Janeiro, unidade do Degase – Departamento Geral de Ações Socioeducativas, vinculado do Governo do Estado) de alguma forma iria ensinar a ele o que eu não tinha ensinado em algum momento.

Eu ficava me perguntando: onde foi que eu errei? A partir do momento em que a polícia liga para avisar da prisão, você já traz a culpa pra você. Então, naquele primeiro momento, eu achei que a culpa era minha e que eles iam fazer o que eu não fiz. Ele ficou lá inicialmente 45 dias, e depois foi para outro regime em que podia sair de dia e apenas dormia lá. Ficou numa ala do Comando Vermelho, e eu nunca tinha ouvido dizer que essas unidades eram divididas por facção. Ele só cumpriu a primeira medida, porque, quando teve chance, não voltou. Teve quatro entradas lá, e saiu em todas. E com o conhecimento que ele adquiriu lá dentro, toda vez que ele fugia caía dentro de uma favela dominada pelo Comando.

Quando ele completou 18, foi assumir uma comunidade chamada Rato Molhado, no Engenho Novo, e com 20 foi assassinado (Rafael foi morto por policiais civis quando já estava rendido, de joelhos, entre as favelas do Rato Molhado e do Jacaré, em 5 de dezembro de 2006). Meu entendimento foi lento para que eu tentasse ajudá-lo, e o dele foi muito mais rápido para que se envolvesse naquela estrutura de crime. Esses meninos aprendem muito mais rápido a entrar no mundo da criminalidade do que a mãe possa entender e ajudar.

Eu tinha que trabalhar para sustentar a casa, como muitas outras mães que passam pela mesma situação. Minha vida foi se desestruturando, eu perdi a pensão das quentinhas, perdi vários empregos. E meu filho começou a perder a vida lá dentro, porque jovem negro não cumpre medida socioeducativa nessas unidades. Ele cumpre pena.

O Movimento Moleque nasceu dessa percepção, em 2003. O que fui aprendendo naquele sofrimento eu queria passar para outras mães. Tem uma pedra grande em frente à unidade de Santo Expedito, em Bangu, que foi um marco. Eu pedia às mães que chegassem antes do horário de visita, aos domingos, e ficava lendo para elas o Estatuto da Criança e do Adolescente, as partes que falavam de adolescentes autores de atos infracionais.

Foi ali que nasceu o Moleque, porque eu ia escrevendo ideias que elas traziam, e a gente foi se unindo. E nós chegamos a montar um diagnóstico e um plano de melhorias para as unidades de medidas socioeducativas em 2005, fruto dessas conversas.

Um ano depois, em 2006, Rafael foi assassinado. Pensei em desistir de tudo, me senti uma inútil. Como as pessoas iam confiar em mim se eu não tinha conseguido salvar nem meu filho? Mas quem não me deixou sair foram eles, os adolescentes que eu atendia na época, e os pais desses meninos. Eles fizeram um encontro, me chamaram e disseram que não podiam me perder, que todos ali estava representando o Rafael. Que eles precisavam de mim. Só aí eu vi a importância do Movimento Moleque e dessa luta, que hoje se fortalece aqui na Rede. As pessoas que chegam aqui estão no chão, e precisam de nós para se levantar. Eu não luto por uma pessoa, eu luto por todos.

* Mônica Cunha, 51 anos, fundadora do Movimento Moleque, grupo que luta pela promoção dos direitos de adolescentes que estão no sistema socioeducativo e de seus familiares.

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Mônica Cunha
Fundadora do Movimento Moleque e integrante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

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