Postais de uma pandemia

Anistia Internacional

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A pandemia da COVID-19 afeta a todos nós. Porém, o vírus – e as medidas implementadas para contê-lo – impacta as pessoas de maneiras diferentes e não existe uma solução única para todos. Se você não tem acesso a água corrente, por exemplo, é impossível seguir as diretrizes de lavagem das mãos. Se você mora em um campo de refugiados ou em um assentamento informal, o distanciamento social não é possível.

Convidamos pessoas de vários canto do mundo, com realidades diferentes, e que, juntas, fazem parte do movimento da Anistia Internacional a compartilharam suas experiências sobre a pandemia.

Abaixo, você pode ler histórias de sete países, incluindo Espanha, Nepal, Brasil, África do Sul e Canadá.

Elas demonstram como a pandemia evidenciou ainda mais as desigualdades que já existiam e porque os governos precisam adaptar suas respostas a situações específicas. No entanto, essas histórias também mostram o quanto temos em comum. Todos queremos ter uma vida segura e saudável e saber que nossa família está bem. Todos nós queremos ser tratados com dignidade e respeito. E todos estamos adotando estratégias diferentes para lidar com esses tempos estranhos e assustadores; e descobrindo momentos de esperança.

Jaime, Hong Kong

Jaime é Líder da Juventude da Anistia Internacional em Hong Kong

Neste momento, me sinto cheia de incertezas. Fomos um dos primeiros lugares afetados pelo surto no final de janeiro e, embora e de modo geral tenhamos conseguido conter o vírus, acabamos de ser atingidos por uma segunda onda de novos casos.

Hong Kong não está tecnicamente em confinamento, mas ambas as precauções de segurança impostas pelo governo e adotadas pelos cidadãos estão em vigor desde o início de janeiro. Pudemos agir rapidamente, porque esta não é a primeira vez que lidamos com um surto de vírus em larga escala – as memórias da SARS em 2003 ainda estão gravadas profundamente nas mentes dos Hong Kongers, e entendemos desde cedo a importância da solidariedade e de assumir a responsabilidade coletiva durante uma crise de saúde pública.

Essa solidariedade e responsabilidade coletiva também são o que me dá esperança.

Durante a escassez inicial de alimentos e suprimentos de saúde, grupos de voluntários entregaram pacotes de assistência aos idosos. Todos usavam máscaras para evitar serem infectados e para não infectar os outros. As pessoas carregavam máscaras extras para dar aos que não conseguiam obtê-las. Todo mundo mostrou imenso apoio aos nossos profissionais de saúde.

Em tempos como esses, tornou-se evidente que precisamos pensar para além de nós mesmos e trabalhar juntos para enfrentar essa crise de saúde pública, desinformação e desigualdade.

Raul, Brasil

Raull Santiago é ativista de direitos humanos e jornalista. Tem 31 anos e vive na favela do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

A pandemia do coronavírus é muito difícil aqui. Muitos vivem em moradias precárias, com poucos espaço e muitas pessoas. Existem famílias extremamente pobres que não têm nada para comer e, quando precisam se isolar socialmente, e dependem de doações de alimentos.

Dicas básicas da Organização Mundial da Saúde, como lavar as mãos algumas vezes ao dia, simplesmente não são possíveis para muitas pessoas aqui. É necessária solidariedade para superar a desigualdade e o vírus.

A recente pandemia está expondo as desigualdades no meu país e em outros. A água é um direito humano, mas ainda falta aqui. O saneamento básico é o mínimo que as pessoas devem ter para viver com dignidade, mas o esgoto a céu aberto ainda é uma realidade.

A maioria das pessoas que moram onde eu moro, se fossem sujeitas à quarentena total hoje, não teriam água potável e nada para comer – elas começariam a passer fome em menos de uma semana.

Faltam recursos mínimos para conter a propagação desse vírus, e isso ocorre porque nossos direitos humanos mais básicos não são garantidos. Precisamos de toda a ajuda possível.

Faço parte de um grupo de ativistas que criou um escritório de crise aqui no Complexo do Alemão. Estamos tentando fazer um trabalho de conscientização e prevenção, além de pedir doações para ajudar as pessoas extremamente pobres que moram aqui.

Todos os dias recebemos pedidos de ajuda – alimentos, água e produtos de limpeza simples. Está desesperador. Estamos fazendo o nosso melhor com o mínimo e sem recursos do governo.

Ana, Canadá

Ana é assessora de Direitos Indígenas na Anistia Internacional Canadá. Noodinkwe é seu nome tradicional.

Eu tenho um sistema imunológico comprometido, então minha família e eu estamos em um rígido isolamento há três semanas e ficaremos aqui por muito tempo. Temos a sorte de conseguir receber entregas e caminhar pelo rio duas vezes por dia.

Ficarei bem, mas estou preocupada com meus amigos e familiares nas comunidades indígenas deste país. Séculos de negligência por parte dos governos significam que as comunidades indígenas carecem de infra-estrutura e serviços que a maioria das pessoas tem como certo em um país rico como o Canadá.

É quase impossível se isolar nas comunidades, onde é comum que três gerações e mais de 10 pessoas morem em uma casa de dois quartos. Essas casas foram construídas a baixo custo pelo governo e geralmente não são projetados para climas do norte e remotos: mofo, água contaminada e uma estrutura em colapso são comuns e podem contribuir para condições médicas pré-existentes.

O Canadá é um país vasto com água doce abundante; é um país onde as pessoas têm água potável e segura diretamente da torneira e diretrizes rigorosas de segurança da água. Exceto em muitas comunidades indígenas. Atualmente, existem cerca de 100 comunidades que não podem beber a água de suas torneiras, e ainda precisam comprar galões de água e trazê-los para comunidades remotas. Em muitas áreas, também foi dito às pessoas que a água da torneira não é segura nem para limpeza.

Os povos indígenas vivem sob um regime complexo de saúde. É tão subfinanciado que o tribunal canadense de direitos humanos declarou o sistema como discriminatório contra os povos indígenas e ordenou que o governo canadense resolvesse essa questão. A maioria das comunidades está sem médicos e enfermeiros, hospitais ou mesmo equipamentos médicos de emergência, e as pessoas precisam viajar para obter tratamento em centros médicos.

A primavera está chegando no norte do Canadá e, com ela, inundações sazonais em comunidades localizadas intencionalmente pelos governos em terrenos baldios. Meu medo mais profundo agora é pelas pessoas que passam por essa crise todos os anos com pouca ou nenhuma resposta emergencial do governo. O que acontecerá quando o novo coronavírus chegar nessas comunidades remotas?

Boniswa, África do Sul

Boniswa é presidente da Anistia Internacional Vaal Chapter

A pandemia da COVID-19 afetou a mim e à minha comunidade (o município de Vaal na zona 7 de Sebokeng, perto de Joanesburgo), alterando vidas muito depois da paralisação do governo.

O sistema educacional sul-africano tem desafios mais do que suficientes e me preocupo que o fechamento das escolas exacerbará ainda mais a situação. As escolas públicas dos municípios carecem de recursos e infraestrutura. Muitos pais nos municípios são analfabetos e não conseguem ajudar as crianças nas lições de casa.

Vivemos em uma sociedade gravemente desigual e a crise da COVID-19 evidenciou ainda mais essa lacuna. A maioria das pessoas na minha comunidade são trabalhadores contratados em regime de meio período, autônomos ou desempregados e mal conseguem sobreviver. A paralisação nacional praticamente nos deixou de mãos atadas.

Meu pai é um trabalhador da construção civil e sustenta uma família de sete pessoas com muito pouco por mês. Atualmente, ele não tem conseguido trabalhar e isso afeta nossa capacidade de comer, tomar banho e sobreviver.

Ontem mesmo na nossa rua houve um funeral, fiquei surpreso porque nem sabia que alguém havia falecido, mas o que realmente me entristeceu foi o próprio funeral. Apenas contextualizando, na cultura africana os funerais são feitos durante uma semana de luto e de comemoração pela vida. O funeral foi pequeno e terminou em duas horas.

Bo, Suécia

Bo tem 90 anos e é um dos membros mais antigos da Anistia Internacional ainda na ativa.

Nosso grupo local cancelou o encontro e muitos outros eventos, mas mantemos contato por e-mail. Estamos trabalhando em alguns casos em Myanmar, Coreia do Norte e Arábia Saudita e estamos muito preocupados com o que está acontecendo nesses países, mas ainda podemos fazer campanhas virtualmente.

A maioria dos nossos membros locais tem mais de 70 anos, então estamos nos escondendo do vírus em um isolamento social voluntário. Mas continuamos enviando cartas e cartões postais aos endereços recorrentes em nossos países-foco. Mantemos contato constante com outros membros da Anistia ao redor do mundo.

Estamos aproveitando a primavera antecipadamente e assistindo muito aos noticiários!

Gerrard

Gerrard é músico nascido em Kivu do Sul, na República Democrática do Congo. Ele vive no campo de refugiados Kakuma, no Quênia, desde 2011.

Eu fiquei sabendo sobre o novo coronavírus através das redes sociais. Estou muito preocupado com isso aqui. Temos um estilo de vida limitado e os conselhos sobre como nos proteger da COVID-19 – para nós no campo de Kakuma – serão difíceis de seguir.

A maioria das pessoas costuma estar em grupos, fazendo fila nos centros de distribuição de alimentos e de água. Os jovens refugiados permanecem juntos, compartilham comida, vão para os centros juvenis. Dizer às pessoas para evitar multidões simplesmente não faz sentido.

O governo precisa fornecer alimentos, desinfetante e segurança. Sim, estamos recebendo comida, mas não é suficiente, já que ficaremos em casa pelo menos nos próximos dois meses. Deveríamos estar recebendo dois meses de entrega de comida de uma só vez para minimizar o movimento, mas isso ainda não está acontecendo.

Não há água corrente e, alguns lugares aqui, recebem entregas de água apenas duas vezes por semana.

Precisamos de segurança porque o bloqueio e o toque de recolher causarão problemas. Se você quebra o toque de recolher e acaba na prisão, paga muito dinheiro para sair. Já ouvi falar de pessoas que pagam 50 dólares. Há muita corrupção na polícia queniana e estou preocupado com o impacto do toque de recolher.

Além de tudo isso, há a limitação de salários. Ninguém está ganhando dinheiro, e precisamos de dinheiro para combater o vírus. Você não pode dizer às pessoas para economizar dinheiro para comprar desinfetantes quando eles não podem pagar nem por comida e água.

Tsering, Nepal

Tsering trabalha na Anistia Internacional Nepal  

O isolamento aqui afetou desproporcionalmente os trabalhadores migrantes e as pessoas mais pobres. Milhares de trabalhadores Nepali estão sem recursos em países estrangeiros, muitos sem trabalho. A situação também é igualmente terrível para os assalariados e para quem está no mercado informal.

Ainda que o governo tenha anunciado alguns programas de auxílio emergencial, nos preocupa que eles não alcancem muitos dos grupos mais vulneráveis, incluindo refugiados e pessoas sem documentação.

Mesmo antes do estouro da pandemia, o sistema de saúde do Nepal já lutava para fornecer os serviços básicos, especialmente na região rural. Então mesmo que o número de casos de COVID-19 ainda não seja tão alto aqui, já não há testes e ventiladores suficientes, bem como equipamento de segurança para os profissionais da saúde. Acredito que todos nós nos preocupamos em pensar como o sistema funcionará quando os números começarem a subir.

Como moro com minha família, não tem sido tão difícil lidar com o isolamento. Mas são muitas as coisas das quais sinto falta. Sinto saudades de encontrar meu namorado, que não mora comigo, e ter a liberdade de sair e me aventurar nas ruas. A todos que se sentem estressados, eu diria para darem um tempo das redes sociais e encontrar alguma atividade física para ocupar a mente. Limpar a casa sempre deu certo para mim, por me dar um senso de ordem e controle.

Como nos dias que se seguiram ao terremoto de 2015, quando o Estado lutava para coordenar os esforços de resgate e emergência, são os cidadãos Nepali que se colocaram na linha de frente para ajudar quem precisa. Em Kathmandu, voluntários arrecadaram dinheiro para levar itens de primeira necessidade aos campos de refugiados em Rohingya. Em Birgunj, a população local tem fornecido refeições diárias aos trabalhadores indianos sem recursos e, em várias partes da cidade, a vizinhança tem se unido para alimentar os animais abandonados.   

Nas últimas duas décadas, a população Nepali precisou lidar com uma situação extrema atrás da outra. Como país, sobrevivemos a uma década de guerra civil, a um terremoto devastador e a uma constante agitação política. No processo, nossos cidadãos desenvolveram um nível de resiliência que é realmente inigualável.

Ana, Espanha

Ana é assessora de imprensa na Anistia Internacion Espanha e vive em Madrid.

No começo, todos arranjamos desculpas para sair de casa por um tempo: ir ao mercado, passear com o cachorro, visitar uma tia que precisava de ajuda… Mas com o passar dos dias, nos acostumamos a ficar em casa. As ruas vazias nos assustam um pouco e até mesmo as sirenes das ambulâncias soam diferentes: mais alarmantes. Eu olho pela janela e vejo os lindos prédios antigos de Madri me encarando em silêncio.

Estamos espantados e aterrorizados com o número de casos e mortes. Ainda assim, se tentarmos bastante, conseguimos ver alguns momentos positivos nessa crise. Por exemplo, todas as tardes, de nossas varandas, nós aplaudimos os profissionais de saúde que arriscam suas vidas diariamente.

Espero que as pessoas valorizem a importância de um sistema de saúde público e o defendam quando isso tudo passar.

Enquanto isso, a vida continua. Trabalho como assessora de imprensa na Anistia Internacional Espanha e não é fácil, mas precisamos continuar trabalhando, mesmo que alguns de nossos parentes e amigos estejam passando por momentos difíceis. Distantes, mas juntos. Ativos, mas nos cuidando também. Quando vejo que algo que a Anistia Internacional está dizendo sobre a COVID-19 e direitos humanos é levado a sério por políticos e jornalistas, vejo a importância de continuarmos nossos trabalho. Se não colocarmos os direitos humanos no centro de qualquer medida que tomemos, não iremos sobreviver como um sociedade unida.

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