Passados dois anos, Peña Nieto não pode limpar a mancha de Ayotzinapa

Erika Guevara Rosas
Diretora da Anistia Internacional para a região das Américas

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Há certos eventos que representam um ponto de mudança em um país. A forma como o governo decide gerenciá-los define como os mesmos serão escritos nos livros de história. Esta semana faz dois anos do desaparecimento forçado de 43 alunos de uma escola rural normal no sul do México, depois de um encontro brutal com as forças de segurança.

A tragédia não resolvida tornou-se uma mancha no governo do presidente Enrique Peña Nieto, que já é sinônimo da abordagem irresponsável das autoridades mexicanas com os direitos humanos no país, onde os responsáveis ​​por crimes como a tortura, execuções extrajudiciais e desaparecimentos forçados raramente chegam a um tribunal.

 “A lista de falhas na condução do caso de Ayotzinapa  é tão longa que chega a ser incrível”. Erika Guevara-Rosas, Diretora da Anistia Internacional para a região das Américas

Seis meses após o desaparecimento forçado de estudantes, o então procurador-geral da República, Jesús Murillo Karam, deu ao público uma explicação oficial do que as autoridades acreditavam ter acontecido. Em conferência de imprensa, disse que os estudantes haviam sido mortos por um cartel de drogas poderoso que, em seguida, queimou os corpos em um depósito de lixo.

 “Ele a chamou de verdade histórica“. Erika Guevara-Rosas.

A declaração gerou caos e indignação, principalmente depois que uma equipe de peritos forenses internacionais afirmaram que a explicação era cientificamente impossível, o que forçou a renúncia de Murillo Karam. No entanto, nem ele nem o governo nunca se retrataram.

Alguns meses mais tarde, em uma tentativa de demonstrar que estava agindo para lançar alguma luz sobre a tragédia, o governo mexicano concordou em permitir que o caso fosse acompanhado por uma equipe de especialistas de prestígio em todo o mundo, nomeados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

 Mas depois de um ano, e após a publicação de dois relatórios contundentes que apontam uma série de falhas das autoridades na forma como eles tinham feito a pesquisa, os especialistas foram convidados a deixar o país.

O governo de Peña Nieto não gostou do fato de ter passado vergonha em escala internacional.

As autoridades prometeram que iriam continuar com as investigações; prometeram justiça. Disseram que não precisavam de ajuda internacional, que o México poderia assumir a tarefa de determinar o destino e o paradeiro dos alunos.

 Poucos acreditavam. E tinham razão para isso.

“Era de se esperar que um país com um histórico terrível no que se refere aos direitos humanos tivesse chegado ao um ponto morto sobre o caso de Ayotzinapa”. Erika Guevara-Rosas, Diretora para as Américas da Anistia Internacional

Quando a pressão internacional diminuiu e a atenção do mundo se voltou para outros lados, a pressão sobre o governo Peña Nieto diminuiu.

Nunca se deu continuidade nos informes, segundo os quais, dezenas de detidos por suposto envolvimento com o desaparecimento dos alunos, foram torturados para que confessassem o crime.

O grupo de peritos revelou que Thomas Zerón Lucio, o funcionário responsável pela investigação, tinha manipulado a cena do crime em uma tentativa de provar que um pedaço de osso pertencente a um dos estudantes havia sido encontrado nas margens de um rio local no final de outubro de 2014; este fato chocante também passou impune. Uma investigação superficial sobre esta acusação não produziu quaisquer resultados concretos e Zerón foi transferido do Gabinete do Procurador-Geral para uma posição superior no Conselho de Segurança Nacional.

Ayotzinapa Rural College

A flagrante negação do governo de Peña Nieto do que aconteceu com os alunos Ayotzinapa está tão profundamente enraizada que o presidente não ousa pronunciar publicamente a palavra.

“O desaparecimento destes 43 jovens é emblemático e expõe tudo o que está errado no México. Os direitos humanos não são mais que uma ilusão para os milhares de homens, mulheres e crianças que todo ano são vítimas de tortura, assassinatos e desaparecimentos e assim permanecerão enquanto as autoridades insistem que tudo está bem.”

As histórias dos 43 estudantes Ayotzinapa são um lembrete dos mais de 28.000 homens, mulheres e crianças que desapareceram no México na última década, a maioria deles desde que assumiu o cargo Peña Nieto em 2012.

Eles são um lembrete do que significa torturar as pessoas a “confessar” crimes que não cometeram, em uma tentativa vil para mostrar que o governo está fazendo algo contra os grupos criminosos brutais que aterrorizam o país.

Mais uma vez ouvimos as histórias de mães, pais, irmãos, irmãs, filhos e filhas de pessoas “que evaporam” e não têm a quem recorrer na busca desesperada pela verdade e pela justiça.

Em 29 de julho, 2016, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos aprovou um mecanismo de acompanhamento das conclusões e recomendações do grupo de peritos, a fim de determinar o paradeiro de alunos. Mas, sem apoio real das autoridades mexicanas, não há mecanismo que possa lançar luz sobre esses crimes e garantir que os responsáveis ​​sejam levados ​​à justiça.

O governo de Peña Nieto parece confiar na memória de curto prazo do México e esperar que as pessoas esqueçam os 43 alunos, como eles se esqueceram de muitas outras violações dos direitos humanos durante décadas que testemunham contra este país.

Mas não contam que há milhares de pessoas no país e ao redor do mundo que estão cansados ​​de promessas vazias. Continuaremos  lutando lado a lado com todos os bravos defensores de direitos humanos e organizações que não abrem mão da esperança de fazer com que as autoridades mexicanas prestem contas dos seus feitos e cumpram com suas obrigações internacionais de proteger os direitos humanos.

Acabou-se o tempo para manobras políticas. Os familiares dos 43 jovens de Ayotzinapa não vão abandonar a luta até alcançarem a verdade e a justiça para seus filhos.

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Erika Guevara Rosas
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