“Oi, eu me chamo Marielle”

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Publicado originalmente em Revista Marie Claire, 14/05/2018

Por Ana Paula Gomes de Oliveira, do grupo Mães de Manguinhos

No dia 14 de maio de 2014, meu filho Johnatha de Oliveira Lima, foi assassinado por um policial da Unidade de Polícia Pacificadora de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Logo depois da morte do meu filho, recebi uma ligação de uma mulher se identificando como Marielle. Eu não a conhecia.

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Ela ainda não era a 5ª vereadora mais votada na cidade do Rio de Janeiro, mas trabalhava na a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, onde atuava atendendo as pessoas que perderam seus filhos, irmãos, pais. Eu sabia que existia uma Comissão de Direitos Humanos porque tinha visto na televisão. Exatamente no dia da morte do Johnatha, ela me ligou e se colocou à disposição para ajudar no que fosse possível. Eu lembro perfeitamente, ela me disse assim:

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“Oi Ana Paula, eu me chamo Marielle, você não me conhece. Eu trabalho na comissão de direitos humanos da ALERJ, mas eu quero dizer para você que em primeiro lugar: eu estou aqui enquanto mulher, enquanto mãe que eu sou. Eu nem consigo imaginar a dor que você está sentindo. Quero deixar aqui meus sentimentos, todo meu apoio, queria muito poder estar aí agora com você, poder te dar um abraço pessoalmente. Mas eu tenho certeza que vou ter essa oportunidade”.

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E ela seguiu fazendo contatos comigo, com minha família, minha irmã, nos recebeu na comissão, onde eu a conheci pessoalmente. Aqui em Manguinhos, ela esteve presente no ato de um ano da morte do Johnatha e depois em saraus. Marielle era muito gente da gente mesmo. Ela veio até minha casa com a comissão e eu reuni minha família. E aí foi se fortalecendo esse elo, porque ela sempre se fazia presente. As vezes por ligações e muitas vezes nas audiências, não apenas do meu filho. Por muitas vezes a encontrei em atos na frente do Tribunal de Justiça em apoio a outros familiares, em audiências com outras mães de outros jovens assassinados, e ela muitas vezes aparecia lá para dar um abraço na gente. Deixava uma palavra de apoio e de força. Sempre que nos encontrávamos ela queria saber como estava minha família, falava do meu filho. Ela sempre trouxe uma paz e um carinho muito grande.

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Quando soube do assassinato de Marielle, eu estava na Jamaica a convite da Anistia Internacional. Fui participar de um encontro de familiares que também tiveram seus filhos assassinados por policiais na Jamaica e nos EUA. Foi um encontro para compartilhar nossas histórias e nos fortalecer.

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No dia 14 de março, depois de um dia intenso de atividades, eu não quis sair de noite por causa do cansaço e fiquei no hotel vendo revendo fotos do meu filho e das mobilizações no celular. Naquele dia completavam 3 anos e 10 meses do assassinato do meu filho. Fiquei refletindo sobre tudo que aconteceu após a morte do Johnatha, sobre o motivo de estar naquele lugar, na Jamaica. Um lugar tão distante da minha filha, da minha família, dos meus amigos. E comecei a pensar nisso tudo, e entendendo que se eu estava ali porque havia um propósito. Então eu peguei uma foto do meu filho, e comecei a escrever. Como se estivesse conversando com ele:

 “Filho, a mãe te ama. Nunca vai te esquecer”.

Quando acabei de postar nas redes sociais o texto e a foto, meu celular começou a tocar e receber mensagens. Era Denize: uma mãe que eu conheci através da Marielle e da Comissão de Direitos Humanos. Nos aproximamos pela triste realidade que nos unia: seu filho também foi assassinado por policiais.

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Foi Denize quem me deu a notícia da morte da Marielle. Eu fiquei muito, muito mexida. Como se estivesse perdendo mesmo alguém da minha família, uma grande amiga. Eu sabia que a qualquer hora, do dia, noite, madrugada que eu ligasse, ela sempre me atendia.

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É inaceitável que a vida de Marielle tenha acabado desta forma tão cruel e ainda que não temos uma resposta sobre quem matou e quem mandou matar Marielle.

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Marielle sempre foi presente por todas nós. Uma defensora incansável de nossos direitos. E agora, nós, mães, para quem ela sempre estendeu a mão quando precisamos, somos e sempre seremos por ela e pelas suas e pelos seus. Nossas vozes não descansarão, seguiremos na luta sendo a voz de Marielle até que a justiça aconteça. Exija respostas das autoridades assinando a petição da Anistia Internacional. Marielle presente, hoje e sempre!

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Assine a petição e exija justiça para Marielle. 

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