Resolvendo o “Dilema das Redes”: revisão do modelo de negócios da Big Tech

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14 de outubro de 2020 Política internacional Liberdade de expressão Indivíduos em risco

Por Rasha Abdul Rahim, codiretora da Anistia Tech

Se há algo que 2020 destacou, é a nossa confiança no mundo digital para conexão e interação social. Para muitos de nós, serviços e plataformas online, como o Facebook e o Google, ofereceram um cordão salva-vidas durante a pandemia, permitindo-nos manter contato com família e amigos, migrar tanto trabalho quanto escola para o ambiente online, e também obter informações atualizadas sobre saúde. Mas essa conveniência apresenta um custo aos nossos direitos humanos, incluindo nossa saúde mental, como é fortemente demonstrado em “O Dilema das Redes”, um novo documentário lançado na Netflix, em setembro.

O Dilema das Redes abre nossos olhos para a maneira como nossas vidas são constantemente monitoradas (e controladas) por essas plataformas. É a situação do filme “O Show de Truman” (1998) elevada à décima potência, monitorando um terço do planeta.

Em abril, o ex-CEO do Google Eric Schmidt expôs “o benefício dessas corporações, das quais amamos falar mal, em termos de capacidade de comunicar… a capacidade de obter informações é profunda…”, e disse que as pessoas deveriam ser gratas porque “essas empresas conseguiram capital, fizeram o investimento, construíram as ferramentas que estamos usando agora e realmente nos ajudaram.” No documentário, entretanto, os membros do Vale do Silício contam uma história bem diferente. Eles argumentam que os piores aspectos da humanidade continuam se manifestando nessas plataformas como um resultado direto da maneira como essas plataformas foram projetadas.

Essas plataformas são projetadas para otimizar três coisas: 1) por quanto tempo elas podem manter os usuários grudados nas telas; 2) quantos novos usuários elas podem atrair; e 3) quanta receita de anúncios elas podem gerar com a veiculação de anúncios para usuários cuja atenção está nas telas.

 

O Dilema das Redes abre nossos olhos para a maneira como nossas vidas são constantemente monitoradas (e controladas) por essas plataformas. É a situação de “O Show de Truman” elevada à décima potência, monitorando um terço do planeta.

Rasha Abdul Rahim, codiretora da Anistia Tech

 

Tudo isso alimenta o modelo de negócios subjacente, o qual consiste, em essência, em colher e monetizar nossa informação pessoal. A característica fundamental deste modelo é acumular grandes quantidades de dados sobre as pessoas ao mantê-las nas plataformas pelo maior tempo possível, usar esses dados para elaborar perfis incrivelmente detalhados sobre a vida e o comportamento dos usuários e monetizá-los vendendo essas informações para quem quiser influenciá-los.

Conforme advertimos em nosso relatório de 2019, o modelo de negócios baseado em vigilância do Facebook e do Google não é apenas inerentemente incompatível com o direito à privacidade, mas representa uma ameaça sistêmica a uma série de outros direitos, incluindo a liberdade de opinião e expressão, liberdade de pensamento e direito à igualdade e a não discriminação.

Os algoritmos do YouTube determinam qual vídeo tocará em seguida, enquanto no Facebook eles determinarem o conteúdo de nossos feeds de notícias e quais anúncios nos serão apresentados. Frequentemente esses algoritmos aumentam a desinformação e o conteúdo de caráter divisivo, alimentam o racismo, e inclusive influenciam nossas próprias crenças e opiniões.

O documentário revela como equipes, formadas principalmente por homens brancos, no Vale do Silício são explicitamente encarregadas de explorar as vulnerabilidades de nossa psicologia humana: nossa natureza viciante, nossa necessidade de validação social e nossa tendência para conteúdo incendiário e sensacionalista. Isso se dá primordialmente porque essas empresas descobriram que essa é a melhor maneira de nos manter conectados por mais tempo, de obter mais e mais dados sobre nós, de fazer melhores previsões sobre nosso comportamento e de lucrar com a venda de anúncios.

Em outras palavras, todo o ecossistema de informações que atualmente atende a um terço do planeta foi criado não para nos servir, mas para nos manipular e nos usar. Os serviços do Facebook e do Google parecem “gratuitos”, mas como o ex-Google designer Tristan Harris diz no documentário: “se você não estiver pagando pelo produto, você é o produto”. E o domínio das plataformas das empresas significa que agora é efetivamente impossível interagir com a internet sem “consentir” com o modelo de negócios baseado em vigilância de tais empresas.

 

Sebastien Thibault

Embora o documentário apresente isso como “um dilema de redes sociais”, a questão não necessariamente precisa ser um dilema. Apesar do que somos levados a acreditar, a Internet não precisa depender de um sistema de vigilância. As pessoas que se registraram em plataformas quando estas respeitavam muito mais a privacidade, ou antes de serem adquiridas pelo Facebook ou pelo Google, agora enfrentam a escolha entre abandonar um serviço do qual dependem ou de se submeter à vigilância constante. Escolha essa que não é, e não deveria ser, legítima.

Precisamos urgentemente que os governos intensifiquem e introduzam regulamentações para revisar o modelo de negócios e proteger nossos direitos. Esta é uma questão sistêmica e estrutural que não será fácil de resolver, e exigirá uma combinação de soluções políticas, jurídicas e estruturais.

Os esforços para definir limites muito mais rígidos sobre o rastreamento e uso de dados pessoais não serão suficientes se não abordarem a concentração de dados, e poder, nas mãos do Facebook e do Google. Ao mesmo tempo, o coro cada vez maior de políticos, reguladores e acadêmicos que propõem que a Big Tech seja “desmembrada” não conseguirá lidar com os abusos sistêmicos dos direitos humanos, a menos que eles pressionem por medidas que abordem holisticamente o modelo de negócios baseado na vigilância em si.

Nenhuma abordagem funcionará sozinha, nem podemos resolver o dilema das redes sozinhos. Precisamos de liderança e ação urgente de nossos governos para nos proteger dos abusos da Big Tech.

Leia o relatório: “Gigantes da vigilância: como o modelo de negócios do Google e do Facebook ameaça os direitos humanos”

 

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