Nenhum passo atrás no direito de amar

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Por Mônica Benício, viúva da defensora de direitos humanos e vereadora Marielle Franco.

“As rosas da resistência nascem do asfalto. A gente recebe rosas, mas estaremos de punho cerrado, falando do nosso lugar de existência contra os mandos e desmandos que afetam nossas vidas”. Assim minha companheira Marielle Franco se pronunciou em plenário na Câmara Municipal do Rio de Janeiro no dia 8 de março deste ano. A data, que sempre representou a luta das mulheres, também imprime nossa resistência a todas as formas de opressão. E em tempos que o conservadorismo avança, todos os dias são de luta e resistência para duas mulheres que se amam.
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E foi assim, com luta e resistência, que Marielle enfrentou dias muito difíceis no exercício do seu mandato como vereadora, pois ser mulher negra, lésbica, feminista, favelada e de esquerda em uma casa parlamentar repleta de homens brancos e ricos, símbolos dos setores que representam todo o atraso político deste país, foi por todo tempo um ato de persistência. Um dos dias mais dolorosos dessa trajetória foi a tentativa de aprovação do Projeto de Lei da Visibilidade Lésbica.
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O projeto foi rejeitado por dois votos e sua frustração foi muito grande. Este era um debate que tocava pessoalmente Marielle: era uma expressão clara da negação de sua vida pessoal, da negação ao nosso amor. A “fortaleza” com que se apresentava no plenário não era a mesma de quando estamos juntas.
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Profundamente abalada, foi ao banheiro me ligar e chorou ao relatar o veto ao projeto. Como sempre fazíamos, nos tranquilizamos e nos fortalecemos. Porque quando amamos, somos companheiras em toda a extensão poética e política da palavra! Mesmo triste ela foi ao plenário, como sempre fazia, e denunciou a bancada fundamentalista, racista e lgbtfóbica que domina a Câmara. Marielle sabia da sua responsabilidade com nossas bandeiras e lutas.
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Em maio, ao completar 50 dias do seu assassinato, alguns de seus projetos foram colocados em votação em uma sessão extraordinária. E esses setores que Marielle sempre enfrentou na Câmara seguiram agindo. O único projeto que teve votação adiada foi exatamente o que instituía o “Dia da luta contra a homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia” no calendário oficial da cidade. Mesmo não esperando nada diferente desta Casa, não deixamos de lamentar e de sofrer – tanto por vermos quem são as figuras que estão à frente da política institucional desse país, que nos negam direitos, quanto por ela, que mais uma vez sofreu a tentativa de ser silenciada e teve seu projeto vetado.
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Lembrar isso neste dia dxs namoradxs, às vésperas de completar três meses do crime brutal que tirou a vida da minha mulher, significa reafirmar nosso amor e luta para vivermos isso. Hoje, após ela ter sido executada num crime político, no centro da cidade de uma das principais capitais do mundo, continuaremos exigindo resposta para seu assassinato, mas não uma resposta qualquer. Reafirmamos todo os dias que sua luta segue e que não daremos nenhum passo atrás pelo direito de amar.
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No país que mais mata sua população LGBTI e que nega direitos às chamadas minorias políticas, Marielle e nossa história de amor representam força inspiradora para a luta, mas também, e principalmente, para o livre exercício do afeto e dos sentimentos. Seguiremos a todo tempo reafirmando que existimos, que nossas vidas importam. E, assim, por ela, por nós, continuaremos lutando para que nada nos sujeite e que o que nos defina seja sempre o amor.
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Publicado originalmente no jornal O Globo em 12/06/2018.

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