Meu filho não é só mais um

Bruno F. Duarte
Assistente de Novas Mídias

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Por Terezinha Maria de Jesus e Ana Paula Oliveira, mães cujos filhos foram assassinados pela polícia no Rio de Janeiro.

O pior dia das nossas vidas foi saber que não teríamos mais nossos filhos conosco. Eduardo tinha 10 anos quando foi atingido por um tiro de fuzil na varanda de casa, no Complexo do Alemão – uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Johnatha foi covardemente atingido pelas costas quando policiais tentavam dispersar uma confusão em Manguinhos – outra grande favela da capital fluminense. O que tinham em comum? Os dois eram meninos pobres e negros da periferia do Rio de Janeiro, foram mortos por policiais militares. E o mais triste: ambos os casos permanecem impunes até o momento.

Hoje, 20 de novembro de 2015, o Brasil celebra o Dia Nacional da Consciência Negra. É o dia em que devemos manifestar o orgulho por nossas raízes. Mas é difícil falar em orgulho quando nossos filhos estão sendo assassinados justamente por serem negros e pobres. O Brasil, na realidade, não tem o que comemorar: vemos o racismo presente no nosso dia a dia: ao procurar um emprego, ao ser abordado pela polícia, ao frequentar determinados espaços.

É como se viver em favela, um lugar com muita gente pobre e preta, fosse um atestado de que não temos o mesmo direito do resto da população que vivem em bairros bonitos e arborizados. A maior prova disso é a injustiça: no caso do Eduardo, o inquérito policial concluiu que os policiais agiram em legítima defesa, mesmo em se tratando de um menino de 10 anos desarmado. Ontem o Ministério Público decidiu denunciar um dos policiais envolvidos. No caso de Johnatha, os policiais foram desmascarados quando tentavam registrar o homicídio como auto de resistência, mesmo estando desarmado. Porém, um ano após o assassinato, ainda não há perspectivas de julgamento.

Eduardo e Jhonatha poderiam ser apenas exemplos da violência diária no Brasil. Assim como nós, a favela está cheia de familiares chorando seus mortos. Mas eles são nossos filhos e decidimos, nós duas, transformar o luto em luta.

Desde o último dia 10 de novembro, nós duas estamos percorrendo quatro países da Europa e mobilizando pessoas para pressionarem o governo brasileiro. No ano que vem, os olhos do mundo estarão voltados para as Olimpíadas, então queremos aproveitar esta oportunidade para dizer que o Rio é uma cidade linda para os turistas, mas que maltrata sua população mais pobre.

A resposta por onde passamos, Holanda e Inglaterra até o momento, foi muito boa. Sentimos que estamos sendo ouvidas. Não é fácil reviver a sensação de perda quando contamos nossas histórias, lembramos dos detalhes e retomamos a indignação. Mas o carinho e acolhimento que recebemos de ativistas, funcionários, doadores da Anistia Internacional e até de membros do governo destes países, nos faz querer continuar. Eles reforçam que isto que estamos vivendo não deve ser aceito.

Nunca imaginamos que teríamos esta oportunidade em nossas vidas. Mas cada país, cada olhar atento ou indignado ao nosso relato nos faz ter mais esperança de que estamos no caminho certo.

Não vamos descansar até termos justiça.

Assine a petição pelo fim deste ciclo de violência: #DigaNãoÀExecução

Bruno F. Duarte
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