*Publicado originalmente em Marie Claire Brasil. Foto: Pamella Moreno

 

“É preciso imagem para recuperar a identidade…”, disse a historiadora, poeta e ativista Beatriz Nascimento. Ela se referia, na narrativa do documentário Orí (de Raquel Gerber, lançado em 1989), ao papel que as imagens têm na afirmação (ou negação) do que somos. Penso nas palavras de Beatriz ao rememorar as imagens veiculadas sobre nós nesta pandemia. São múltiplas imagens que, se pudermos agrupá-las e classificá-las, veremos diferentes fases do que fomos ou somos.

Fomos impactadas por imagens assustadoras de covas sendo cavadas; dos cemitérios em expansão da noite pro dia; das máscaras artesanais cobrindo o desalento nos rostos nas portas dos hospitais e dos transportes públicos superlotados; do frio das máquinas ligadas em corpos inertes e solitários nas UTIs e da corrida em busca por oxigênio em Manaus.

A primeira fase da pandemia nos fez, muitas vezes, ser representadas por imagens esvaziadas de humanidade, desempoderadas, sem saída. Imagens do medo e da derrota. Nas longas filas por leitos ou nas filas da Caixa Econômica Federal, rezando e protestando pelo auxílio emergencial.

Mas havia também, nos canais de televisão, os rostos das especialistas em saúde pública trazendo más notícias e também orientações contra o negacionismo destrutivo de certas autoridades e seus seguidores irresponsáveis. Havia as imagens de vidas perdidas, de mães, irmãs, amigas que se foram. Mas também de muitas de nós que, sobreviventes, lutavam pela vida dos seus.

Em outras imagens, fomos retratadas com um olhar momentaneamente aliviado diante da cesta básica doada por algum projeto comunitário e nossas imagens também estavam naquelas que organizavam a distribuição, que partilhavam a solidariedade. Havia também, nessa fase, imagens que traziam a alegria das recuperadas que recebiam alta hospitalar, finalmente deixando a doença e seguindo a caminho do resto da própria vida, vencendo a covid.Com sequelas de dor, de perdas e de medos, a fase seguinte nos traz imagens de dissidência, revolta e reivindicação. É urgente que tudo seja diferente. Lá estávamos nós, na imagem potente de Maria Bethânia, em sua live, em fevereiro deste 2021, que, em alto e bom som, reivindicava “vacina, respeito, verdade e misericórdia”. O seu brado (nosso grito!) ecoando nos ouvidos e nas camisetas pelo país. Semanas antes, nos vimos nas imagens de Mônica Calazans, a enfermeira, a mulher negra da periferia de São Paulo que se tornou a primeira pessoa a receber a vacina contra a covid-19 no Brasil, em 17 de janeiro deste ano. Éramos ela, queríamos ser ela!

Desde então, vemos imagens de parentes, amigas, vizinhas, colegas de trabalho e desconhecidas emulando ou não figuras de jacarés, gritando palavras de ordem ou não, sendo vacinadas. Vemos senadoras e partes da sociedade reivindicando a presença feminina na CPI do Senado, que seguimos acompanhando como uma novela dolorida, mas necessária, em que vilãs e heroínas são convocadas a dar testemunho. Vemos as ruas cada vez mais ocupadas por defensoras da vida. Vemos nossas imagens nas ações para correção dos rumos do país – imagens que aquecem o coração e dão sentido à esperança.

É verdade que outras imagens ainda existem e são reais: aquelas que retratam a falta de respeito aos direitos de cada uma, que reproduzem o desespero das que têm sido ignoradas ou desassistidas. Somos também essas mulheres, negras e índias na maioria, sem emprego, sem saúde e sem esperança. Ou, ainda, somos aquelas que, da ausência, extraem esperança de mudança, de sobrevivência, de transformação.

A pandemia da covid-19 foi, e segue sendo, a maratona mais exaustiva que vivemos nos últimos séculos. Da forma que foi possível, estivemos juntas todo esse tempo, nos sentimentos, nos medos, na busca por saídas. Essa é a identidade que nos reivindica e convoca. É preciso agir para a mudança. É preciso, também, ser a mudança que reivindicamos. Na linha de frente da luta por nossos direitos, precisamos seguir resistindo, partilhando imagens de quem aposta em outro futuro diferente da normalidade injusta, excludente e negligente. Estamos todas em busca de respeito e precisamos achar as pontes que retratem, de nós, as imagens de empoderamento que nosso projeto comum de futuro traz.

 

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