Publicado originalmente em Open Democracy, 8/12/2020

Hoje, 8 de dezembro, quando ironicamente se comemora o Dia da Justiça no calendário brasileiro, completam-se 1.000 dias do assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Esse crime brutal, que atingiu uma das mais notáveis vereadoras da história do Brasil, ainda não foi solucionado de forma minimamente satisfatória. A cada data que representa um marco dessas mortes, são apresentadas pistas esparsas, mas o que queremos saber, de fato e sem mais rodeios, é: quem mandou matar Marielle e por quê.

Hoje, estamos saindo de um ciclo de 1.000 dias de um silêncio ensurdecedor. Sem Marielle e Anderson, e de um mergulho agoniante na injustiça. Não podemos permitir que mais um dia amanheça sem que tenhamos as respostas para esse crime.

Há um mês, foram realizadas as eleições municipais em todo o Brasil. Esse ano, as 51 cadeiras disponíveis na Câmara Municipal do Rio de Janeiro foram disputadas por 1.758 candidatos. Uma dessas posições foi ocupada brilhantemente por Marielle, até que sua trajetória foi cruelmente interrompida. No pleito de 2016, ela foi eleita como uma das vereadoras mais votadas da cidade do Rio de Janeiro, com cerca de 46 mil votos, mas não conseguiu terminar o seu mandato.

Das candidaturas que se apresentaram em 2020, as mulheres correspondiam a menos de um terço do total de candidaturas, e olhando para o recorte de mulheres negras esse número foi ainda menor. Menos de 30% se comprometiam com ao menos uma pauta de direitos humanos – como saúde, educação, emprego, habitação, transporte, saneamento básico, combates a desigualdades, crianças e jovens, cultura, direitos das mulheres, direitos dos negros, idosos, LGBTQIA+ ou meio ambiente.

Repetimos que Marielle Franco é gigante, tanto por sua trajetória em vida quanto pela mobilização social, física e digital que seu assassinato causou. Filha, mãe, ativista, preta, LGBT e cria do Complexo de favelas da Maré, reunia em sua própria biografia a luta em prol das populações mais vulnerabilizadas, em prol das pessoas que sobrevivem, apesar dos espaços que a elas são negados e das violências sofridas. Não à toa, seu trabalho como vereadora sintetizou a luta por direitos humanos, por justiça racial e igualdade de gênero, que se faz tão necessária, e que deve ser tão urgentemente priorizada na agenda política dessas novas vereanças, que iniciam seus mandatos em pouquíssimos dias.

Marielle nos faz falta. Ela mesma entendia a dor da ausência de alguém querido. Começou o ativismo em defesa dos direitos humanos com 15 anos de idade, quando perdeu uma amiga em um tiroteio na Maré. Foram dez anos de atuação e, posteriormente, coordenação da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

Inúmeros casos de violações de direitos humanos contra a população, inclusive contra agentes de segurança do estado, vinham ao encontro de Marielle diariamente. Sua atuação se pautava a partir de um olhar humano e amplo.

Não há dúvida de que Marielle estaria profundamente envolvida com o processo eleitoral de 2020 – dizemos isso, claro, sem saber ao certo que rumos sua brilhante trajetória política teria tomado se não fosse tão brutalmente interrompida. O silenciamento de seu mandato é a maior representação da perseguição a quem defende uma sociedade verdadeiramente justa. A falta respostas e responsabilização, também.

Estamos a poucos dias de 2021, e de um novo começo na gestão política. Precisamos que os novos parlamentares, e que todo o poder público, estejam comprometidos com o legado de Marielle nos direitos humanos, e com as respostas que precisamos para solucionar as motivações de seu assassinato.

O ano de 2020 nos escancarou a urgência dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais para o enfrentamento da Covid-19 e de seus impactos. A maioria da população brasileira é negra – e são essas as pessoas que têm seus direitos mais violados. O Brasil é o país em que mais se mata pessoas trans e travestis, e é um dos recordistas em violência contra população LGBTQIA+. A cada 2 horas, uma mulher é assassinada no país, e destas, 68% são mulheres negras, segundo o Atlas da Violência. Entre 2018 e 2019 houve um aumento de 150% do registro de violência contra as populações indígenas e quilombolas (fonte: Conselho Indigenista Missionário/2020).

Representantes políticos com agendas antirracistas, feministas, LGBTQIA+ populares e que defendem os direitos humanos podem nos apontar um caminho, se desejamos iniciar a construção de um mundo mais justo e digno para todas e todos.

A Anistia Internacional e o Instituto Marielle Franco lançam um chamado à população. É preciso cessar a violência contra defensoras e defensores de direitos humanos. Queremos que o legado de Marielle seja uma semente, e que nesses 1.000 dias sem sua vida, muitas vozes se despertem contra a impunidade.

Anielle Franco, irmã de Marielle Franco e diretora do Instituto Marielle Franco, e Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

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