EUA devem pressionar pela libertação de blogueiro Saudita Raif Badawi

Ensaf Haidar
Esposa de Raif Badawi, prisioneiro de consciência na Arábia Saudita, condenado a receber mil chibatadas e passar 10 anos na prisão

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Artigo publicado originalmente no Washington post em 2 de abril de 2015

Em 17 de junho de 2012, meu marido, melhor amigo e pai dos meus três filhos, Raif Badawi, foi preso em Jidá, na Arábia Saudita. Por quase três anos, enquanto ele definhava na prisão, minha família ficou presa em um pesadelo.

Raif é um homem de princípios e um ativista respeitado na Arábia Saudita. Em 2008, começou um blog aonde os leitores poderiam discutir política, religião e outros problemas sociais abertamente. Mas na Arábia Saudita, um indivíduo pode pagar caro por ter um blog. Raif foi condenado por insulto ao Islã e violação das leis repressivas do reino sobre tecnologia da informação.

Então, nesse janeiro, em um show de crueldade, as autoridades chicotearam Raif 50 vezes. Ele ainda enfrentará mais 950 chibatadas e sete anos na prisão. Eu não acho que possa ter algo pior do que ver, através da câmera trêmula de um celular, um vídeo do meu marido sendo espancado publicamente em frente a uma mesquita a milhares de quilômetros de distância. Porém, descobri recentemente os esforços na nova tentativa de acusação de apostasia contra Raif – que ele abandonou ou renunciou o Islã. Essa informação gelou minha espinha porque, de acordo com a lei saudita, essa acusação é passível de morte – geralmente decapitação.

Minha família também recebeu a confirmação de que a Suprema Corte Saudita submeteu o caso de Raif para o mesmo juiz que o sentenciou ao castigo e a 10 anos de prisão. Esse juiz já solicitou duas vezes a acusação de apostasia para Raif. Enquanto nos anos anteriores o seu pedido foi negado pela falta de jurisdição da corte criminal, isso mudou. Esse juiz escreveu em seu veredito original que está confiante de que Raif é um apostata.

Caso o tribunal considere meu marido culpado, eu temo que nunca mais o veja. Como meus filhos vão crescer sem seu pai?

Quando eu consigo falar com Raif, eu falo sobre tudo que está sendo feito por ele. Por causa de um grito global de governos e indivíduos de todo o mundo, Raif não foi surrado por 11 semanas consecutivas. Mas eu sei que assim que o holofote da mídia e a pressão sobre o regime monárquico saudita ceder, a Arábia Saudita fará o que quiser com meu marido. É fundamental que a pressão não diminua, nem mesmo por um instante.

Mais de um milhão de pessoas de todo o mundo demandaram que as autoridades sauditas liberassem meu marido, incluindo mais de 60 membros do Congresso, que enviaram uma carta ao rei saudita pedindo a libertação. Mas, mesmo assim, nem a Casa Branca ou o Secretário de Estado John Kerry se pronunciaram. Peço aos membros da administração que sigam o exemplo dos seus colegas do Congresso e peçam que Raif seja solto imediatamente. Os Estados Unidos se apresentam como um campeão dos Direitos Humanos em todo o mundo. Ele não pode permitir que a relação estratégica com o reino se sobreponha a seus valores morais. Raif precisa voltar para meus braços, não ser arrastado para a morte.

A acusação de apostasia está com Raif desde que ele foi preso. Mas mesmo que meu marido não seja sentenciado à morte, ele ainda sofrerá maus-tratos e punições cruéis nos anos de prisão, além de centenas de chibatadas. Ele não estará seguro enquanto sua sentença não for anulada e ele, liberado.

Antes de ser preso, meu marido escreveu: “Nós queremos a vida daqueles que desejam a nossa morte; e nós queremos racionalidade para aqueles que querem a nossa ignorância”. Eu carrego suas palavras e sua coragem comigo nos dias mais sombrios e sem esperança. Raif me inspira e me compele a continuar elevando minha voz.

Eu não vou descansar até que meu marido esteja livre.

Ensaf Haidar
Esposa de Raif Badawi, prisioneiro de consciência na Arábia Saudita, condenado a receber mil chibatadas e passar 10 anos na prisão

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