“Eu sobrevivi, saí de uma câmara de tortura e é isso o que tenho a contar…”

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“O que aconteceu com seu dedo?”, me perguntam, quando ao cumprimentar estendo a mão e veem minhas unhas.

O que aconteceu é que foram arrancadas, as das mãos e a dos pés. As cicatrizes que as pessoas veem são as marcas irreparáveis que a tortura deixou em meu corpo. Quando calço sandálias e vejo os dedos, não posso deixar de recordar tudo o que passei.

Os efeitos da tortura nas pessoas são muitos. É desumana: esquentar uma longa lâmina de facão até ficar vermelha e depois bater com ela nas costas de alguém é uma atrocidade. Afeta mentalmente: enlouquece. As vítimas perdem a consciência, admitem ter feito coisas que nunca fizeram.

A experiência pela qual passei – ser torturado e viver no pavilhão dos condenados à morte – me afetou de muitas formas. Prejudicou meus planos de vida e as aspirações que tinha quando estudava. Passei 10 anos na prisão; a esta altura já poderia ter completado minha educação e ter começado a trabalhar. Quando fui libertado, voltei a me reunir com meus amigos e eles já estão trabalhando, se casaram… e pensei “fiquei deslocado”. Prejudicou minha família: sobre eles caiu o estigma de minha situação e o negócio de minha mãe foi à ruina. A sentença afetou a saúde de minha mãe, que se tornou hipertensa e sofre seus efeitos.

O que mais me impressionou foi tomar consciência de que se pode viver em um país no qual, sem motivo algum, é possível enfrentar estas injustiças e, ainda assim, ter que seguir vivendo com elas. Não deixo nunca de rezar para que ocorra uma mudança na Nigéria, mas tampouco deixo de avisar a outros que tenham cuidado, que não acabem se convertendo em vítimas e não passem pelo que eu passei.

Há os que endurecem o coração quando vivem no pavilhão dos condenados à morte. Mas sempre tentei olhar para frente e viver convencido de que logo ocorreria uma mudança. Essa é a razão pela qual me sinto tão feliz em me unir à campanha contra a tortura – em qualquer parte da Nigéria, em qualquer parte do mundo.

Mais de 800.000 pessoas assinaram a petição para que me libertassem através da campanha Chega de Tortura da Anistia Internacional. Esse apoio foi tudo para mim. Jamais conheci essas pessoas, mas elas me deram seu tempo, seu dinheiro, sua energia e eu recebi milhares de cartas e cartões de todas elas. Estou profundamente agradecido a Justine [diretora do HURSDEF, fundação nigeriana para os direitos humanos, desenvolvimento social e proteção ambiental], aos grupos de jovens da Anistia Internacional e a seus voluntários e voluntárias. Graças a todas essas pessoas eu estou em liberdade e são meus heróis.

Esta é minha mensagem para as pessoas que sobrevivem à tortura: unam-se na luta contra a tortura para que outras pessoas não tenham que passar por essa dor. Se sou capaz disso e posso fazer algo para acabar com a tortura, serei o homem mais feliz da Terra. Não quero que nenhuma geração futura tenha que passar pelo que eu passei naquela câmara de tortura.

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