“Esteja sempre presente”

Patrícia Oliveira
Integrante do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro e uma das fundadoras da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

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Meu irmão Wagner dos Santos foi um dos sobreviventes da Chacina da Candelária (23 de julho de 2003) e até hoje tem sequelas daquele massacre. Ele foi a principal testemunha do crime, viu os policiais que atiraram, levou quatro tiros naquela noite (um dos tiros entrou pela nuca e saiu pelo olho, deixando Wagner com perda parcial de audição e visão). E como sobrevivente passou a ser um alvo para os assassinos, tanto que tentaram matá-lo outra vez. Ele teve que sair do Brasil, foi para a Suíça. Desde 1996, quando ele veio para um dos julgamentos dos policiais acusados, e ele sempre ficava sob a escolta da Polícia Federal, eu passei a participar das atividades que exigiam a punição dos culpados pela chacina. E sempre foi uma luta difícil, porque havia uma percepção de parte da sociedade de que o episódio da Candelária havia 63 sido uma ‘limpeza’. Um promotor de Justiça uma vez me falou: ‘Vigário Geral foi uma chacina, a Candelária foi uma faxina’. Até as pessoas começarem a duvidar, a questionar, a versão que prevalece é a da polícia.

Um ano depois da chacina, meu irmão sofreu um atentado. Não existiam no Brasil os programas de proteção a testemunhas. Mas ele estava num lugar chamado Casa da Testemunha, que ficava na Central do Brasil, com escolta policial. Um dia ele saiu ali pelos arredores e a escolta deixou ele sozinho. Ele foi abordado por um homem, que tinha uma foto dele em mãos, perguntando se ele era o Wagner. Ele negou para se proteger, mas com a foto ficava difícil não perceber. Ele correu e tentou atravessar as pistas da avenida Presidente Vargas. Foi aí que apareceu um PM fardado e atirou nele pelas costas. Ele tombou na pista, as pessoas se aglomeraram, e esse PM, já em companhia de outros, o algemou, disse que ele estava roubando e que ia ser levado para a delegacia. Mas o levaram para a Central do Brasil, passaram pelo banheiro, conversaram com alguém, saíram rindo. Meu irmão foi levado para trás de um terminal de ônibus e algemado num portão: os policiais deram mais três tiros e fugiram. Mas ele não morreu, pessoas chamaram o Corpo de Bombeiros e ele foi socorrido. Até hoje, nem com retrato falado se sabe quem foram os autores desse atentado. Aí ele foi para Brasília, já sob a guarda da Polícia Federal, e de lá para a Suíça (onde Wagner vive até hoje). Com mais esses quatro tiros que levou no atentado, Wagner tem também saturnismo, intoxicação aguda por chumbo, e ele não pode ter filhos, entre outros reflexos.

Toda essa batalha do Wagner me mobilizou para a luta. Eu sofri ameaças, mas sempre registrei em delegacia. Eu não podia me sentir presa porque estava sendo ameaçada. Sempre falo isso para qualquer familiar de vítima de violência: recebeu ameaça, registra na delegacia. Nós tivemos apoio na época de entidades de defesa dos direitos humanos, como o Centro Brasileiro da Criança e do Adolescente (que fechou em 2000), e nos unimos com as famílias de vítimas de chacinas como a de Acari e a de Vigário Geral. Um dos julgamentos de Vigário, por exemplo, durou três dias, a gente não arredava pé de lá, sempre juntos. E depois da chacina do Borel, em 2003 (quando quatro jovens da comunidade da Tijuca, na Zona Norte do Rio, foram executados durante uma opera- ção da Polícia Militar), criamos a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, criado por familiares de vítimas de violência policial.

Eu nunca mais saí da luta, lá se vão 20 anos desde que me engajei. Meus exemplos de luta são Vera e Marilene, mães de Acari, que, mesmo doentes, capengando, iam aos atos públicos em defesa da justiça. Elas me ensinaram isso: esteja sempre presente. É preciso dar apoio, conhecer outros casos que não só o seu, pois há elementos comuns que podem ser identificados e ajudar a elucidar crimes. Hoje atuo no Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura (criado pela Lei 5.778, de 30 de junho de 2010, e vinculado à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). É um desdobramento dessa luta, é mais uma trincheira.

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*Patrícia de Oliveira da Silva, 42 anos, integrante do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro e uma das fundadoras da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.

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Almanaque ‘Muitas vozes lutando por Direitos Humanos’

Ao longo de 2016, trabalhamos com mães e familiares de vítimas de violência do Estado para organizar informações sobre direitos humanos e segurança pública, a partir de um conjunto de atividades de formação e de mobilização comunitária sobre o tema. Participaram dessa iniciativa grupos de familiares de vítimas de violência policial, compostos majoritariamente por mulheres moradoras de favelas e outras áreas urbanas periféricas.

O resultado deste trabalho está sistematizado em um lindo e envolvente almanaque, que estamos disponibilizando gratuitamente para você, que já conhece nosso trabalho e nossas campanhas.

Esses e outros temas são tratados nessa publicação exclusiva formulada pela Anistia Internacional Brasil em parceria com o Instituto de Estudos da Religião – ISER, o Movimento Mães de Maio, e a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.

Baixe o almanaque em PDF e leia o relato de familiares, conheça leis e debates que envolvem o tema de segurança pública em nosso país.

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Leia mais

Nota pública da Anistia Internacional pelos 20 anos da Chacina da Candelária

Entre em ação

Assine o manifesto Jovem Negro Vivo!

Patrícia Oliveira
Integrante do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro e uma das fundadoras da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

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