No Dia Mundial da Pessoa Refugiada, vamos acolher quem precisa de refúgio e asilo

Margaret Huang
diretora executiva da Anistia Internacional EUA

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Por Margaret Huang, Diretora Executiva da Anistia Internacional EUA

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Nuri Mohammed é como os outros garotos de sua idade: gosta de passar o tempo com seus amigos e família e sonha como a vida vai ser quando crescer. Ele tem esperança de um dia abrir uma loja e ter seu próprio negócio. Mas a vida de Nuri mudou completamente quando ele voltou para casa um dia e encontrou o exército em sua aldeia, matando seus vizinhos. O exército matou seus pais e oito dos seus irmãos. A última lembrança que tem de sua mãe é dela implorando que ele fugisse. Nuri correu para um lago próximo, onde uma bala o acertou na perna. Ele continuou, andou por três dias até que conseguiu fugir de Mianmar para Cox’s Bazar, em Bangladesh, onde se reencontrou com as duas irmãs que lhe restaram.

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Nuri é um dos mais de 700.000 refugiados rohingyas que, desde agosto de 2017, têm fugido para a vizinha Bangladesh, fugindo da violência e de uma campanha de limpeza étnica na parte norte do estado de Rakhine. Ele fugiu quando os ataques militares incluíram assassinatos, incêndios, estupro, e outras formas de violência física e sexual. Mulheres e meninas têm sofrido as maiores consequências da perseguição – estima-se que mais de 40.000 estão grávidas, um número significativo como resultado de estupro. Suas vidas correm risco outra vez, visto que não têm acesso a serviços de saúde abrangentes e à medida que a temporada de ciclones e monções se aproxima dos campos de refugiados.

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Em outro continente, meninas e mulheres na Nigéria também sofrem as consequências do conflito. Desde a insurgência do grupo armado conhecido como Boko Haram, quase dois milhões de pessoas foram deslocadas, com mulheres e crianças representando aproximadamente 80% dessa população. Entrevistas conduzidas pelos pesquisadores da Anistia Internacional com 141 pessoas, em sua maioria mulheres e meninas, revelaram que as forças de segurança nigerianas e as milícias aliadas confinaram mulheres em campos remotos, onde as estupraram – muitas vezes em troca de comida. Milhares morreram de fome nos campos no estado de Borno desde 2015. As pessoas que conseguiram fugir da violência se encontram em condições que violam seus direitos, abusam de sua dignidade e ameaçam sua segurança.

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Ao redor do mundo, pessoas refugiadas e em necessidade de asilo vivem em estado de constante medo, desconfiando que a qualquer momento possam perder suas crianças ou suas vidas. Alguns são atacados por causa de quem são ou o que acreditam, como os Rohingya em Mianmar, vitimados pelo governo que deveria protegê-los. Outros são vítimas da Guerra continua, presos entre os lados opostos. Hoje, o Iêmen enfrenta uma das piores crises humanitárias do mundo. Cerca de metade da população total do país precisa urgentemente de serviços de saúde, pois os hospitais foram destruídos nos combates. Fronteiras fechadas, aeroportos e portos dificultam a chegada de ajuda à população, levando à escassez de alimentos e de outras necessidades e causando mortes por doenças que poderiam ser facilmente tratadas. Escolas e mercados foram bombardeados com civis dentro.

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Nas Américas, Anistia Internacional documentou o agravamento da crise dos refugiados na região do Triângulo Norte da América Central. Atualmente, Honduras, El Salvador e Guatemala são classificadas como tendo alguns dos ambientes mais perigosos do mundo fora de zonas de conflito, com taxas de homicídio quatro a oito vezes maiores do que a Organização Mundial de Saúde considera epidêmica. Incapazes de buscar proteção ou justiça devido ao sistema de justiça criminal corrompido e ineficaz, essas pessoas têm deixado seus lares para escapar da violência e perseguição. Entretanto, o sofrimento desses que fogem foi exacerbado pelo governo dos EUA ao separar as famílias na fronteira. A Anistia Internacional documentou a detenção de avós e mães após serem separadas de suas crianças ao solicitarem asilo na fronteira ao sul dos EUA. Uma avó, de sessenta e três anos, foi detida por dezoito meses. Ela fugiu de Honduras para evitar que sua neta de quatorze anos fosse recrutada à força como namorada de um membro de uma gangue.

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A responsabilidade de prover segurança aos refugiados é global, como estabelecida pela comunidade internacional após os horrores da Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, os EUA ficaram muito longe de cumprir com esse dever de ajudar essas pessoas em estado de vulnerabilidade. O governo de Trump definiu em 45.000 o número de refugiados que podem ser admitidos nos EUA em 2018. Ainda assim, nem 15.000 foram reinstalados esse ano, com todas as indicações de que não alcançaremos nem a metade desse objetivo terrivelmente insuficiente. O resultado é que milhares de pessoas ficaram em perigo, mesmo com muitas comunidades em todo o país dispostas a recebê-las em segurança.

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Temos visto a disposição e vontade de pessoas ao redor dos Estados Unidos em acolher esses refugiados como vizinhos, colegas, familiares e amigos. Essa é uma experiência histórica de longa data, visto que os EUA frequentemente recebem aqueles que buscam segurança e oportunidades na generosidade da nossa terra. Para muitos, crenças e valores religiosos serviram de estímulo para abrir as portas de seus lares e corações para acolher desconhecidos. Por exemplo, em Miami, na Flórida, moradores honraram sua história de acolhimento de refugiados e aprovaram uma resolução em março para receber refugiados em sua comunidade. O Senado do Estado de Nova York também abraçou o passado de imigrantes dos EUA, invocando a Estátua da Liberdade, abrindo caminho para aqueles que buscam refúgio nas costas dos EUA.

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No Dia Mundial da Pessoa Refugiada, nosso chamado é simples: nós podemos e devemos acolher mais refugiados e oferecê-los auxílio para que possam recomeçar suas vidas em segurança. Devemos apoiar os milhares de outros refugiados que precisam desesperadamente de assistência humanitária básica onde encontraram asilo. Devemos apelar para que nossos líderes eleitos elevem nosso compromisso histórico de receber aqueles que buscam segurança em nosso país e oferecer ajuda humanitária aos que necessitam. Este não é um momento em que podemos renunciar às nossas responsabilidades na esperança de que outro as assuma. Hoje, cada um de nós deve fazer sua parte e mobilizar amigos e familiares a unirem-se a nós. Vamos acolher os refugiados e criar um mundo mais seguro para todos.

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