Dia das mães em El Salvador: María Teresa e Teodora encarceradas por terem sofrido abortos espontâneos

Karen Javorski
Ativista da Anistia Internacional

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A ativista da Anistia Internacional Karen Javorski está nos levando para uma das prisões mais notórias de El Salvador para ver Teodora del Carmen Vásquez e María Teresa Rivera, mulheres que foram presas após terem sofrido complicações na gravidez, resultando em aborto espontâneo.

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Teodora divide uma cela com mais 70 mulheres. Na de María Teresa são 250. Apertadas assim, as mulheres muitas vezes têm de dormir no chão sob os telhados de zinco quente do edifício.

Esta é a prisão de Ilopango nos arredores de San Salvador, capital de El Salvador. Estou aqui com meus colegas da Anistia, e nossos parceiros locais, para visitar Teodora del Carmen Vásquez e outras de “Las 17″, um grupo de mulheres salvadorenhas que estão na prisão após terem passado por abortos espontâneos.

Nós conversamos em uma área ao ar livre logo ao lado do pátio da prisão – o único lugar onde somos autorizadas a entrar. O calor é intenso e com muitos mosquitos, mas pelo menos podemos pegar a brisa do lado de fora. No interior, como Teodora e María Teresa nos contaram, é uma história diferente: grave superlotação, calor intenso e regras rígidas que são impraticáveis e cruéis. Isso não é visto apenas observando o indefinido exterior do edifício.

Outside of Ilopango prison – El Salvador

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Teodora está presa desde 2007, depois que ela passou por um parto de emergência e pariu um natimorto. Ela foi mais tarde acusada de “homicídio qualificado”, acusada de ter tido um aborto, que é proibido em El Salvador. Vinda de uma família pobre e rural, ela não podia pagar um bom advogado. Ela foi condenada a 30 anos de prisão.

María Teresa Rivera está cumprindo uma sentença de 40 anos pelo mesmo suposto crime depois de sofrer um aborto espontâneo. Ambas têm filhos pequenos que têm visto suas mães apenas algumas poucas vezes ao longo dos anos.
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Poucas visitas familiares

Os pais de Teodora, María Elena e Juan, não têm podido visitar sua filha desde junho de 2015. Eles moram muito longe da prisão, e a carga pessoal e econômica de deixar sua família para trás para viajar até a prisão é muito alta. Adicionado a isso, a papelada que os membros da família devem preencher apenas para solicitar uma visita é muito complicada.

Mesmo quando um pedido é concedido, há mais restrições. María Elena descreveu sua última visita a Teodora. “As autoridades da prisão disseram-nos que não podíamos trazer nada para ela”, ela diz.

“Nós só pudemos vir vê-la. Nós não trouxemos nada – dinheiro, comida, roupas – absolutamente nada.”

Juan and María Elena Sánchez, parents of Teodora Vásquez Sánchez

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Tesouros modestos

Teodora e as outras mulheres dependem de seus visitantes para receber suprimentos já que é a única maneira de obtê-los. María Teresa confia na bondade dos outras presas para compartilhar coisas como xampu, papel higiênico, e absorventes porque seu filho é muito jovem para visitá-la sozinho e ela não tem outros membros da família imediata. Ela nos diz que sente sorte por poder contar com algumas dessas mulheres como suas amigas.

De repente, ocorre-me que até seu filho atingir a maioridade, María Teresa não terá visitantes, exceto pessoas como nós. Enquanto falamos, ela chora e meu colega entrega-lhe a única coisa que as autoridades não confiscaram – um lencinho de papel amassado do bolso de trás. Em vez de usá-lo para enxugar os olhos, María Teresa suaviza tentando desamarrotar cuidadosamente o papel em seu joelho. Tudo aqui é algo a ser valorizado e salvo, até mesmo um lencinho amarrotado e velho.

No final da tarde nos encontramos com a irmã mais velha de Teodora, Cecilia, e seu pai, Juan. Pai de 11 filhos, Juan é calmo e composto, e é assim que ele expressa sua tristeza. “Eu me sinto muito triste porque não há nada que posso fazer para tirá-la de lá”, diz ele.

“O que nós queremos é que ela seja libertada. É o maior desejo que temos. Que eles nos digam um dia que estão indo para libertá-la.”

Cecilia Vásquez Sánchez

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Teodora sempre havia apoiado sua família financeiramente, mas a perda da família vai muito além disso. Como Cecilia, que visitou regularmente sua irmã na prisão durante os últimos oito anos, explica: “Não é apenas a minha irmã que está sendo punida, mas toda a família. Todos nós. Porque o coração [de nossa família] não está mais livre.”

Agora, com 12 anos, o filho de Teodora, Ángel, sente sua falta profundamente. Sempre que sua tia ou avós voltam de uma visita, sua primeira pergunta é sempre: “Quando é que minha mãe vai sair?”

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Uma mensagem de agradecimento

Apesar de não poder ver sua filha no dia de visita, as autoridades permitiram que María Elena e Juan fossem visitá-la alguns dias depois.

“A felicidade que eu sinto hoje é saber que Teodora estará conosco muito em breve”, nos conta María Elena. “E eu agradeço à Anistia por vocês estarem lutando por ela. Este processo irá continuar até que ela saia de lá. E isso me motiva, isso me motiva com grande alegria no coração, e agradeço-vos em nome de Deus.”

Teodora é positiva sobre o futuro. Ela nos diz que está bem de saúde, e que está tendo aulas na prisão para poder continuar estudando quando for liberada. Ela espera um dia ir para a universidade e conseguir um emprego. Mas seu maior desejo para o futuro é simples: se reencontrar com seu filho e entes queridos.

 Letters received for Teodora's case W4R

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Os casos de María Teresa e Theodora são apenas dois exemplos da violência contra as mulheres cometidas pelos Estados na América Latina. As diferentes formas de violência demonstram falta de vontade política dos governos de proteger os direitos das mulheres e meninas. Exija que os países modifiquem suas leis e políticas públicas para proteger a vida das mulheres e não colocá-las em risco; assine a petição e basta de violência contra a mulher pelas mãos do Estado!

Karen Javorski
Ativista da Anistia Internacional

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