Depois de escapar da guerra, o que aguarda as crianças sírias na Europa?

Guari van Gulik
Gauri van Gulik é Diretora Adjunta da Anistia Internacional na Europa

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Publicado originalmente em http://edition.cnn.com/2016/08/22/opinions/syrian-children-detention-europe-amnesty/

A situação horrível que as crianças sírias encaram, virtualmente capturada pela imagem assombrosa de Omran Daqneesh, de cinco anos, chocado e ensanguentado nos fundos de uma ambulância após ter sido retirado dos escombros de sua casa, faz com que seja fácil entender por que os pais levam seus filhos em uma viagem desesperada e árdua para a Europa.

Mas se uma criança como Omran sobrevivesse à viagem e chegasse à costa da Europa, seu tormento estaria longe de ter acabado.

Em uma visita à ilha grega de Lesvos, vi em primeira mão o que as espera.

Em um centro de detenção de Lesvos eu conheci Ahmed, um bebê de um ano de idade, que está doente praticamente desde que veio ao mundo por causa do que sua mãe descreveu como um ataque químico. Ela me contou que uma bomba destruiu a casa deles pouco depois que Ahmed nasceu, alojando estilhaços em seu pescoço. Logo depois, ele desenvolveu uma asma severa e outros sintomas típicos da inalação de gás de cloro. Quando eu o encontrei, quase um ano após o bombardeio, pude ver as cicatrizes e como seu corpinho tinha dificuldades em respirar.

A família de Ahmed é palestina e se abrigou primeiramente dos horrores da calamidade e da fome na Síria no campo de Yarmouk, perto de Damasco. Mas a guerra os seguiu quando eles fugiram para Idlib, no norte do país. Depois que uma bomba atingiu sua casa, a mãe os levou para o outro lado da fronteira, para a Turquia, onde eles pagaram contrabandistas para levá-los por águas perigosas em um barco superlotado até as ilhas gregas.

Quando chegaram à Grécia, a família de Ahmed não recebeu uma acolhida calorosa. Eles chegaram depois que o acordo da Turquia com a União Europeia entrou em vigor, em 20 de março, efetivamente transformando as ilhas em instalações de detenção em massa.

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A família de Ahmed ficou presa com mais de 3 mil pessoas no centro de detenção de Moria, isoladas do mundo externo por cercas de arame farpado. Quando os vi, eles não tinham privacidade alguma e nem ideia do que aconteceria com eles depois. Ao invés de prover a Ahmed o tratamento médico urgente de que ele necessitavam, a primeira coisa que o médico fez foi dar à família uma caixa de paracetamol.

 Desde então, eles foram liberados da detenção, mas permanecem presos na Grécia, como outros quase 60 mil refugiados e imigrantes. As rotas que seguem para a Europa estão, em sua maioria, fechadas. Se dependesse de alguns líderes europeus, a maioria seria simplesmente deportada de volta para a Turquia.

 Essa situação desesperadora está acontecendo em toda a Europa, na Hungria, na Sérvia, na Grécia, em Calais e em outros lugares.

 Omran me lembra de tantas outras crianças que vimos pelo continente e do tormento que elas encaram.

 Quase um terço dos refugiados e imigrantes que atravessam o Mediterrâneo para a Europa são crianças. Muitas delas estão viajando sozinhas, sujeitas à exploração, ou foram separadas de suas famílias no caminho, às vezes pelas próprias autoridades. Para aquelas que vivenciaram o trauma da Guerra, quase não há apoio psicossocial.

 Há poucos lugares seguros para elas brincarem, muito menos aprenderem ou irem para a escola.

Algumas das crianças que encontramos passaram tanto tempo longe da escola que esqueceram como ler e escrever.

Um menino sírio de 16 anos que está em um campo na Grécia continental nos contou: “Estamos aqui há 423 dias sem esperança, sem educação, sem escolas. Preciso de uma chance para completar meus estudos.”

Essas crianças precisam de segurança, de cuidados especiais, de educação e de um teto sobre suas cabeças. Elas precisam que os governos permitam e facilitem a reunificação das famílias. Precisam de países que cumpram suas promessas de relocar e realojar famílias como a de Ahmed. Na Europa, os governos estão vergonhosamente atrasados com essas duas frentes. Por exemplo, os líderes da UE relocaram apenas 5% dos refugiados que prometeram ajudar em junho passado.

Apesar de Omran, e de Aylan Kurdi antes dele, ter capturado a atenção do mundo, comoção e indignação não são suficientes. As imagens comoveram o mundo, mas não os líderes. Até que eles ajam, milhares de crianças vão sofrer os mesmos destinos de Omran, Aylan e Ahmed.

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