Dei água aos migrantes que estavam cruzando o deserto do Arizona e fui acusado de crime

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Por Scott Warren

Depois de uma perigosa jornada pelo México e de uma difícil travessia pelo deserto do Arizona, alguém disse a Jose e Kristian que eles talvez encontrassem água e comida em um lugar na cidade de Ajo, chamado Barn [galpão]. O Barn é um ponto de encontro para voluntários humanitários como eu e lá os dois jovens puderam comer, descansar e receber cuidados médicos. Quando os dois se preparavam para ir embora, a Patrulha das fronteiras os prendeu. Os agentes também me algemaram e me prenderam por — nas palavras da polícia — ter oferecido aos dois migrantes “comida, água, roupas limpas e camas”.

Jose e Kristian ficaram detidos por várias semanas, foram obrigados pelo governo a depor como testemunhas materiais no caso contra mim e depois deportados para os países de onde fugiram para salvar suas vidas. Esta semana, o governo me julgará por contrabando de pessoas. Se condenado, eu posso ficar preso por até 20 anos.

No Deserto de Sonoran, a temperatura pode chegar a quase 50º C durante o dia e despencar à noite. A água é escassa. O policiamento mais rígido das fronteiras forçou os migrantes a se deslocarem por um território mais duro e mais remoto e muitos que tentam atravessar essa paisagem não sobrevivem. Ao longo do que ficou conhecido como corredor de Ajo, dúzias de corpos são encontradas todos os anos; presume-se que muitos outros possam ser encontrados.

Os residentes locais e voluntários organizam caminhadas pelo deserto para oferecer ajuda humanitária. Nós levamos galões de água e baldes cheios de comida enlatada, meias, eletrolíticos e suprimentos básicos para primeiros socorros até alguns lugares ao longo dos caminhos da montanha e do cânion. Outras vezes, recebemos relatos de que alguém está desaparecido, e a nossa missão se torna buscar e resgatar — ou, mais frequentemente, recuperar os corpos e ossos dos que morreram.

Ao longo dos anos, os grupos humanitários e residentes locais navegaram em coexistência com a Patrulha das fronteiras. Nós encontrávamos os agentes e informávamos a eles como e onde nós trabalhávamos. Algumas vezes, a Patrulha das fronteiras tentava cultivar uma relação mais próxima. “Que bom que vocês estão aqui hoje”, lembro-me de um agente dizer uma vez. “As pessoas precisam muito de água”. Em uma cidade pequena como Ajo, somos todos vizinhos, e os filhos de todos frequentam a mesma escola. Seja em um mercado ou no campo, era comum que residentes e voluntários encontrassem com os agentes da Patrulha das fronteiras e conversassem com eles.

Esses tipos de encontro são raros hoje em dia. As autoridades do governo reprimiram a ajuda humanitária: negando autorizações para entrar na reserva natural nacional de Cabeza Prieta e chutando e esvaziando galões de água. Eles também estão perseguindo os voluntários de modo agressivo. Diversos voluntários do No More Deaths [Sem mais mortes] enfrentaram possíveis prisões e fianças de até US$10.000 sob acusações de delito federal desde 2017, incluindo entrar em uma reserva natural sem autorização e “abandono de propriedade” — deixar água e latas de feijão para os migrantes (eu enfrento acusações semelhantes de delito de “abandono de propriedade”).

O meu caso em particular pode abrir um perigoso precedente já que o governo expandiu suas definições de “transportar” e “oferecer abrigo”. As leis de contrabando e oferecimento de abrigo sempre foram aplicadas de maneira seletiva: com perseguições agressivas a redes “criminosas”, mas com leniência para as indústrias da agricultura e outras que são politicamente poderosas e que empregam diversos trabalhadores de forma irregular. Agora, a lei pode ser aplicada não apenas a trabalhadores que oferecem ajuda humanitária, mas também aos milhões de famílias em situação mista nos Estados Unidos. Pense, por exemplo, em uma família em que um membro esteja em situação irregular e outro membro, que é um cidadão, esteja fazendo as compras de mercado e pagando o aluguel. O governo chamaria isso de oferecer abrigo? Se essa família estiver dirigindo até um parque para fazer um piquenique, o governo chamaria isso de transporte ilegal? Embora essa possibilidade parecesse exagerada alguns anos atrás, ela se tornou assustadoramente real.

As políticas de administração de Trump – cercear refugiados, separar famílias, prender crianças – pretende impor sua dureza e crueldade. Para essa estratégia funcionar, ele precisa também eliminar a gentileza.

Para mim, a questão que surge de tudo isso não é se a perseguição esfriará a minha comunidade e o seu senso de compaixão. A questão é se o governo levará a sério suas obrigações humanitárias perante os migrantes e refugiados que chegam às fronteiras.

Em Ajo, a minha comunidade ofereceu comida e água a pessoas que estavam viajando pelo deserto há décadas – por gerações. Independentemente do que acontecer com o meu julgamento, no dia seguinte, alguém sairá do deserto e baterá na porta de outro alguém, e a pessoa que atender responderá às necessidades desse viajante. Se ele estiver com sede, ofereceremos água; não pediremos os seus documentos antes. O governo não deveria fazer disso um crime.

Scott Warren é geógrafo e vive em Ajo, Arizona. Esse editorial foi originalmente publicado no Washington Post.

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