Como Albert Woodfox tem sobrevivido há mais de 40 anos em regime de isolamento?

Kristin Hulaas Sunde
Produtora de conteúdo global da Anistia Internacional

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Albert Woodfox passou os últimos 40 anos em regime de isolamento na diminuta cela de um presídio nos EUA. Seu velho amigo Robert King (também encarcerado durante décadas na tristemente célebre prisão conhecida como Angola) nos conta como o valor político de Albert e o apoio mundial que recebe permite que ele siga adiante, apesar do sofrimento e do isolamento que sofre.

“Angola era considerada a prisão mais cruel dos Estados Unidos. Trabalhava-se em condições de semiescravidão: 17 horas por dia por dois centavos e meio a hora. Havia muitas violações, os guardas vendiam os presos jovens [como escravos sexuais]”

Robert Hillary King fala da Penitenciária Estadual de Luisiana, conhecida como Angola, na qual passou 29 anos sozinho em uma cela. Este centro penitenciário se encontra ao sul do estado sulista, em um terreno que no passado foi uma enorme plantação de escravos.

Hoje, Robert é um dinâmico homem de 72 anos, cuidadosamente vestido com uma camisa azul, que se prepara para anunciar umaconferência sobre o sistema judicial norte-americano na Universidade de Dundee, na Escócia. Leva pendurado no pescoço uma medalha de ouro de Benin, país da África ocidental, adornado com três figuras. Elas representam os Três de Angola, um dos quais é Robert.

Ele e outros dois jovens negros, Albert Woodfox e Herman Wallace, passaram a ser conhecidos por este nome depois que se rebelaram contra o regime racista da prisão no início da década de 1970, e entre os três acabaram passando mais de 100 anos em regime de isolamento, um tempo recorde.

Sobreviver ao isolamento

“Não tenho palavras para falar dos anos de tortura mental, emocional e física que tenho suportado”, disse Albert Woodfox.

O regime de isolamento significa estar completamente sozinho por 23 horas ao dia, encerrado em um local não maior que um espaço no estacionamento. “A ausência de interação social é incrivelmente prejudicial”, explica Teça Murphy, responsável por campanhas dos Estados Unidos da Anistia, que trabalha no caso dos Três de Angola desde 2006.

“Experimentam-se coisas como insônia, alucinações, pensamentos intrusivos e paranoia severa. As taxas de suicídio são desproporcionalmente superiores entre as pessoas recolhidas em isolamento. Depois de apenas algumas semanas, os olhos perdem a capacidade de adaptar-se para ver de longe.”

Apesar de a ONU o qualificar como forma de tortura, o regime de isolamento – ou Restrição em Cela Fechada, no jargão prisional de Luisiana – continua sendo usado de forma generalizada nos Estados Unidos.

Robert, condenado por um roubo que sempre negou ter cometido, acredita que sua recém-adquirida consciência política deu aos três a força mental necessária para sobreviver à crueldade e à degradação.

“Quando me puseram em regime de isolamento, já considerava que os Estados Unidos era um grande cárcere. Me vi arrancado de uma situação de custódia mínima na sociedade a uma de máxima segurança na prisão. Creio que Herman e Albert sentiam o mesmo, que estivesse onde estivesse, teria que continuar lutando. Era um sistema que havia que combater.”

“Estar politizado me deu fortaleza, um sentido de propósito e a coragem de minhas convicções. Eu estava na prisão, mas a prisão não estava em mim.”

A audácia de fazer política na prisão

Os três homens nasceram na pobreza extrema na década de 1940 no sul dos Estados Unidos, definido então pela segregação racial. Robert fala das incursões periódicas e generalizadas a homens negros na localidade que fazia a polícia de Nova Orleans, e que o enviavam à prisão por crimes que eram atribuídos por “testemunhas” subornadas, ameaçadas ou submetidas a surras. “Havia começado a pensar que o sistema estava podre”, disse.

O movimento radical de direitos dos negros, o Partido dos Panteras Negras (BPP, sigla em inglês), se converteu em um catalizador para as suas frustrações. “Albert se converteu em um membro de pleno direito do BPP quando saiu da prisão e foi à Nova York”, disse Robert. “Era a primeira vez que via homens negros com a cabeça erguida, orgulhosos de quem eram”.

Herman e Albert, enviados a Angola por roubo a mão armada, começaram a compartilhar aulas de educação política na cozinha ou no pátio da prisão, defendendo os direitos dos reclusos a melhores condições, e que se pusesse fim à cultura de violações. “Levar a ideologia do BPP para a prisão foi algo muito audacioso”, disse Robert.

“Era inacreditavelmente ameaçador para as autoridades penitenciárias”, acrescenta Tessa. “Os homens eram ativistas muito eficazes e se converteram em objetivos fáceis”.

Uma campanha de vingança

Pouco depois de 1972, Albert e Herman foram declarados culpados do assassinato de um guarda penitenciário, Brent Miller. Sempre mantiveram a inocência, respaldada inclusive pela viúva da vítima, Teenie. Albert acredita que sua declaração de culpa foi uma reação à política que estavam fazendo.

Não havia provas materiais que os relacionassem ao crime e sua declaração de culpa se baseou principalmente no questionável testemunho de outro preso, que foi indultado em troca de sua declaração. No entanto, ele e Herman passariam as quatro décadas seguintes sozinhos em suas celas.

Quando enviaram Robert para Angola, o submeteram ao isolamento em uma cela situada junto a de Albert. “Começamos a expressar nossas opiniões, tratando de conseguir mudanças com greves de fome e sendo muito, muito problemáticos. Quem não chora não mama.”

Embora os procedimentos judiciais tenham sido deficientes e a declaração de culpabilidade de Albert tenha sido anulada em três ocasiões, as autoridades de Luisiana têm bloqueado sua libertação em cada uma delas.

Robert saiu em liberdade em 2001 e, desde então, luta sem descanso pela libertação de seu amigo. Por fim, depois de 41 anos de isolamento, Herman foi libertado em outubro de 2013. Infelizmente, morreu de câncer dias depois.

Em junho de 2015, um juiz ordenou a soltura imediata de Albert, mas a porta de sua cela se fechou em seguida, quando as autoridades apresentaram recurso contra essa decisão. O procurador-geral de Luisiana, James “Buddy” Caldwell, é agora a única pessoa que se interpõe no caminho da liberdade de Albert, pois lidera uma campanha pessoal de vingança contra ele.

“Buddy Caldwellquer que aconteça com Albert o que aconteceu com Herman”, disse Robert: “Sair e morrer”.

Um espírito inquebrantável

Mas Albert e os que o apoiam se negam a ser silenciados. Este mês de dezembro, através da campanha global de envio de cartas da Anistia, Escreva pelos Direitos, milhares de pessoas do mundo inteiro pedirão sua libertação.

“Albert está entusiasmado por este apoio”, disse Robert. “Significa que as autoridades sabem que Albert e seus simpatizantes não vão abandonar. Tentaram sufocar e silenciar isso, e cada vez que o tentam, se torna maior.”

“Estou certo de que ele sente que isso não apenas afeta a ele, porque ‘o que passa com milhares de pessoas que também estão em isolamento?’ O foco é muito mais amplo. Somos apenas a ponta do iceberg.”

Albert, que já completou 68 anos e tem problemas de saúde, continua em isolamento, mas já não está em Angola. Pode receber visitas duas horas por semana e fazer telefonemas. Robert fala com ele periodicamente e o visitará mais uma vez quando voltar aos Estados Unidos. “Falamos obre o caso. Isso é o principal, ver Albert em liberdade. Ele tem esperança”.

“Acredito que poderá se virar fora da prisão”, acrescenta Robert. “Há muita gente que quer lhe dar uma oportunidade de viajar. E se não quiser fazer nada e relaxar, pode vir para a minha casa. Será bem recebido em um montão de lugares.”

“Albert diz: ‘Nunca poderão quebrar meu espírito’. Emborra seu corpo esteja roto em certa medida, ainda tem esse espírito. Que mais podem fazer a ele? Está preso há quase 50 anos. Eu sentia o mesmo: que mais poderiam fazer comigo, salvo enviar-me para fora do planeta?”

Kristin Hulaas Sunde
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