Cinco ativistas LGBTI para celebrar no Dia Internacional contra a LGBTfobia

Gabriela Moscardini
Assistente de Comunicação Anistia Internacional

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17 de maio é o Dia Internacional contra a Homofobia, Lesbofobia, Bifobia e a Transfobia. Apresentamos cinco ativistas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais (LGBTI) que estão causando na luta por seus direitos.

Alessandra: “Vencer a transfobia também depende de uma mudança na atitude das pessoas”.

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Alessandra Ramos Makkeda foi informada mais de uma vez: “Nós não aceitamos a sua turma aqui”. Alessandra é uma mulher trans e ativista LGBTI no Brasil – país com a maior taxa de assassinatos de pessoas trans no mundo. Segundo uma ONG local, 64 pessoas trans haviam sido assassinadas no Brasil em 2018, até o dia 1º de maio. Em 2017, o mundo ficou chocado com o vídeo que viralizou na internet mostrando tortura e assassinato de Dandara do Santos, uma mulher trans brasileira de 42 anos; os agressores foram condenados em abril de 2018. Esse é o contexto no qual Alessandra trabalha como integrante do ‘Transrevolução’, um grupo do Rio de Janeiro que luta contra a discriminação e promove debates sobre questões que afetam lésbicas, gays e pessoas transgênero.

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Tradutora e intérprete de vários idiomas, incluindo a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), Alessandra também ajudou a organizar o primeiro Fórum Nacional Trans Negro em Porto Alegre, em 2015. “Temos que entender que a transfobia, o preconceito e o ódio são problemas estruturais”, afirmou em 2017. “Mas vencer a transfobia também depende de uma mudança na atitude geral das pessoas.” Apesar dos obstáculos, Alessandra está determinada a continuar combatendo essas atitudes, acreditando em um futuro melhor para as pessoas trans no Brasil.

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“Diovi”: “Eu queria mobilizar pessoas que estavam escondidas, como eu estive uma vez, e dizer a elas que isso não é mais necessário”.

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“Diovi”, tem 30 anos, é participante ativa de uma organização dedicada especificamente aos direitos de lésbicas, bissexuais e mulheres trans (LBT) no Togo. O grupo também promove a liberdade e a realização de mulheres marginalizadas neste país da África Ocidental onde as relações homossexuais são criminalizadas. Com apenas 30 membros ativos, sua organização começou a cresceu a partir de uma reunião informal de pessoas interessadas. “No começo foi uma oportunidade de nos encontrarmos como amigas e nos sentirmos mais confortáveis em sermos quem somos”, diz Diovi. “Pouco a pouco percebemos que já haviam organizações homossexuais e que deveríamos fazer o mesmo por nós, para poder defender nossos direitos, falar destes assuntos, nos conhecermos”.

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Diovi conta porque se juntou ao grupo. “Eu me senti sozinha no meu canto. Eu não poderia nem mesmo admitir ou dizer quem sou. Eu estava sempre me escondendo. Mesmo quando conhecia alguém com quem podia falar sobre questões LBTs, fingia não ser afetada”. A adesão ao grupo LBT mudou sua atitude. “Isso me motivou. Eu queria fazer campanha para outras pessoas que estavam escondidas como eu estive e dizer-lhes para não se esconderem. Afinal, somos seres humanos e também temos direitos”.

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Hartoyo: “Quanto mais grupos e pessoas LGBTI estiverem conscientes e lutando por seus direitos, mais próximos estaremos da justiça”.

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Perseguido uma vez pela polícia e pela multidão em Aceh por sua sexualidade, Hartoyo é agora um ativista comprometido que defende pessoas LGBTI condenadas a chibatas nessa mesma cidade indonésia, onde é cumprida a legislação islâmica (Sharia). De acordo com as leis islâmicas introduzidas em 2015, em Aceh, ter relações homossexuais é crime e deve ser punido publicamente com chibatadas.

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A jornada de Hartoyo começou em 2007, quando ele foi preso junto com seu namorado. “O policial urinou na minha cabeça e nos espancou”, disse ele à BBC, em 2017. “Nos trataram como animais”. Ele prometeu que ninguém jamais experimentaria a mesma humilhação e, assim, fundou a Suara Kita (Nossa voz) em 2009, uma organização dedicada aos direitos de pessoas LGBTI.

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Mas, até mesmo defender esses direitos é perigoso em um lugar como Aceh. Quando um casal gay foi flagelado em 2017, primeira vez que essa punição foi aplicada em Aceh, Hartoyo viajou até lá para apoiá-los. “Eu visitei Aceh para conhecer as vítimas e fui perseguido por um grupo de pessoas”, ele nos disse. “Eu tive que ir de um hotel para outro por segurança antes de finalmente conhecer as vítimas e ajudá-las”. Apesar dos riscos, Hartoyo continua com seu trabalho. Neste Dia Internacional contra a Homofobia, Lesbofobia, Bifobia e Transfobia, ele pede: “Quanto mais grupos e pessoas LGBTI estiverem conscientes e lutando por seus direitos, mais próximos estaremos da justiça.”

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“J”: “Eu quero que nossa sociedade aceite a diversidade”.

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J sabia que era lésbica antes mesmo de conhecer a palavra. Agora, com quase 30 anos, ela contou a seus amigos mais íntimos, mas não à sua família. Ela não quer que pessoas conhecidas saibam. Seu desejo de manter sua sexualidade em segredo é uma reação direta ao clima hostil que persiste para as pessoas LGBTI na Coreia do Sul. “Eu acho que o governo coreano e a sociedade estão tentando nos apagar”, comenta. “A mídia usa frequentemente o termo “bromance” (브 로맨스) ou “girl crush” (걸 크러쉬) quando falam sobre amor ou afeição entre dois homens ou duas mulheres. Eles não querem reconhecer a existência de ‘gays’ ou ‘lésbicas’ ”.

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Para J, há pequenos avanços que o governo poderia introduzir para melhorar a vida das pessoas LGBTI na Coreia do Sul. “Eu quero que nossa sociedade aceite a diversidade”, diz ela. “Para criar essa cultura, precisamos fornecer às escolas e famílias uma educação que respeite a diversidade sexual e de gênero. E, para implementar este tipo de educação, precisamos de uma “lei antidiscriminação”, assim como legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

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Soldado: “Para mim, o Dia Internacional contra a Homofobia, Lesbofobia, Bifobia e a Transfobia é um dia de muita celebração entre ativistas que lutam contra a transfobia e a homofobia nos 365 dias ao ano”.

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Soldado Kowalisidi é um ativista trans e intersexual que atualmente mora na Ucrânia. Em 2016, ele deixou tudo para trás e fugiu de sua casa na Sibéria por causa da perseguição que sofria por ser uma pessoa trans na Rússia. Ataques contra pessoas LGBTI na Rússia são comuns, e o sequestro e tortura de homens gays na República da Chechênia, na Federação Russa, é o exemplo mais recente e terrível desse fato. A experiência de Soldado não é exceção. “Fui brutalmente espancado nas ruas cinco vezes por grupos de ‘ativistas’ apoiados pelo Estado. Em 2016, depois que o Serviço Federal de Segurança garantiu que não poderiam fazer nada por mim nem por minha iniciativa trans – e meus agressores ameaçaram me matar, fugi para um futuro incerto na Ucrânia”.

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Soldado agora continua seu ativismo na Ucrânia, dedicando também tempo para trabalhar como voluntário da Anistia Internacional. Ele conheceu seu parceiro, com quem se casou e construiu um lar feliz. Mas os problemas de Soldado não acabaram: o governo ucraniano rejeitou seu pedido de asilo e ameaça retorná-lo à Rússia.

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Mesmo assim, ele ainda tem esperança. “Para mim, o Dia Internacional contra a Homofobia, Lesbofobia, Bifobia e a Transfobia é um dia de muita celebração entre ativistas que lutam contra a transfobia e a homofobia nos 365 dias do ano. É uma ocasião para ampliar as vozes de ativistas que não têm a oportunidade de falar abertamente agora na mídia.”

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Conteúdo publicado originalmente em inglês

Gabriela Moscardini
Assistente de Comunicação Anistia Internacional

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