A vida para as crianças tem que ser “bonita, bonita e bonita”!

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Publicado originalmente em 12/10/2020 na revista Marie Claire
Por Jurema Werneck*

As lentes “da pureza da resposta das crianças”, como disse o poeta, podem nos ajudar a olhar este momento em que estamos, no Brasil e no mundo, para reativar mais do que nossa indignação, a nossa capacidade de agir pelo bem coletivo. Nesta coluna vou falar das crianças, ou melhor, do quanto temos que ampliar nossas ações para permitir que experimentem a vida em toda sua potência criativa e bela.

Muitas de nós temos sido ativas e bem-sucedidas na busca do melhor para os nosso mais próximos, filhos, afilhados, conhecidos. Queremos que vivam a vida bela e justa. Mas, infelizmente, ainda não é assim para todas as crianças do Brasil. Neste ano em que celebramos os 30 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a pandemia da Covid-19 nos revela a triste realidade de milhares de brasileiros e brasileiras que enfrentam, todos os dias, desafios de gente grande. A lei ainda precisa ser constantemente acionada, pois toda criança exige e tem direito à proteção da família, da sociedade e do Estado. Mas, muitas vezes, estas respostas demoram demais.

Em 2020, vimos através das notícias, um país onde crianças não conseguem viver bem, vítimas da violência, da negligência e da incompetência de muitos, entre eles, do Estado. Como o menino João Pedro de Mattos, de 14 anos, morto com tiros nas costas, em ação de policiais que faziam operação em sua comunidade em São Gonçalo-RJ. Na mesma semana de sua morte, em maio, foram 17 vidas perdidas de outros adolescentes e jovens em somente quatro favelas do Rio de Janeiro.  No início de junho, a trágica morte de Miguel Otávio, no Recife-PE, chocou o país. O menino de 5 anos caiu do nono andar do edifício onde sua mãe, Mirtes Renata Souza, trabalhava. A patroa Sari Corte Real, mulher branca e primeira-dama de Tamandaré-PE, não respeitou o direito de Mirtes à proteção de sua saúde, de ficar em casa, como demandavam as autoridades sanitárias e recaiu sobre Miguel o custo mais alto desta negligência.


Quando a pandemia se instalou no país, crianças tiveram que deixar as escolas e amigos, viram seus familiares e vizinhos adoecerem e morrerem, experimentando medos e angústias diante de um “colonavilus” que não compreendem totalmente. Na maioria dos casos, só tiveram seus familiares, nós mulheres principalmente, ao seu lado, cuidando e protegendo.

Governos em todas as esferas se omitiram no enfrentamento à pandemia, não oferecendo às crianças, até o momento, políticas públicas consistentes que permitam seu isolamento social respeitando seus direitos à educação, alimentação adequada, ambiente seguro, saúde e tantos outros direitos.

Ausências, negligência e violências não são uma novidade trazida pela pandemia, sabemos muito bem. O engajamento, o compromisso e atuação para mudar este quadro também não. Eu, menina negra nascida em uma favela do Rio de Janeiro, crescendo sob o peso de uma infância desassistida, sei bem o papel crucial que a família e a comunidade têm em mudar trajetórias que a omissão estatal empurram para o pior. Em ensinar os caminhos de luta, os modos de engajamento, para que um dia o ruim que vivemos não se repita na vida de outras crianças. Sobrevivi e cresci para ocupar espaços historicamente negados às negras e moradoras de favelas e periferias. Mas sabemos que não é de exceções que é feita a transformação – é preciso que os direitos de todas e todos, especialmente das crianças, seja garantido, para que possam vivem suas possibilidades e expandir seus horizontes e, com eles, nossas possibilidades humanas. Nestes tempos de pandemia, a mobilização comunitária tem feito a diferença e tem contando com o engajamento de muita gente quem não vive nestes lugares.
         
As crianças indígenas, dos povos tradicionais e quilombolas também não tiveram acesso à prevenção em saúde e à garantia do direito à vida. E a salvo que deveriam estar em seus lares, assumem a proteção de seus territórios como em setembro, com o Pantanal em chamas, coube a elas tentar salvar o que era possível como o fogo se aproximando de uma aldeia, em vídeo que viralizou nas redes sociais.

 Neste outubro, a resposta das crianças de que a vida é bonita e otimista, precisa ser ativamente conquistada. Lutar por soluções, por respostas e cobrar respeito aos direitos delas é o caminho para chegarmos lá. Vale à pena. Vamos?

* Jurema Werneck é diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil e colunista da revista Marie Claire.

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